Na temporada passada, Big Love nos apresentou episódios maravilhosos. A cada semana a ansiedade aumentava, assim como a tensão dos conflitos desenvolvidos e o senso de urgência, que dava a impressão de que a família Henrickson estava correndo contra o relógio para desarmar as bombas que insistiam em cair em seu quintal a cada episódio. Já em sua quarta temporada, que estreou há três semanas, o ritmo estava um pouco mais ameno, enquanto “Free at Last” serviu para nos relembrar dos conflitos do ano passado e dos ganchos deixados por seu finale, “The Greater Good” apresentou novos problemas a serem desenvolvidos nos próximos episódios, como a candidatura de Bill Henrickson ao senado, a constante ameaça de JJ e o affair homossexual de Alby. Porém só com “Strange Bedfellows” – aliás, excelente nome para o episódio – que as coisas começaram realmente a entrar naquele ritmo alucinado que tanto gostamos de conferir no ano passado, com seus personagens envolvidos em grandes conflitos individuais que convergiram, ao fim do episódio, em um clímax dramático de perder o fôlego.
A família Henrickson está aos pedaços. Cada membro dessa família, antes tão unida, está envolvido em tantos problemas pessoais que já não há mais espaço para o diálogo e as feridas deixadas por histórias passadas estão sendo soterradas por uma promessa de um novo começo, de uma vida melhor e mais tranquila – um sonho que se mostra mais distante e impossível a cada nova explosão dramática de seus personagens.
No episódio dessa semana, tivemos as três esposas de Bill dividindo a história em três eixos igualmente complicados e maravilhosos. Cada vez fica mais claro a cegueira de Bill, tão obcecado em fazer a coisa certa e em consertar o irremediável que já perdeu o contato com sua família. Em “Stranger Bedfellows” sequer o vimos interagir com Barb e Marge, o que é até justificável já que ele estava em Washington, em viagem de negócios, mas nem mesmo Nicki, que o acompanhou com sua filha, teve oportunidade de passar um tempo com seu marido, pois Bill estava sempre correndo atrás da aprovação de um congressista da cidade – e mesmo quando os dois pareciam ter um momento importante durante um jantar, JJ ligou para Bill jogando mais problemas em cima de suas costas e aumentando um pouco mais a barreira entre ele e sua segunda esposa.
Nicki tem passado por poucas e boas ultimamente, suas atitudes são sempre feitas com uma boa intenção, mas acabam sempre decepcionando as pessoas ao seu redor. Foi um belo momento vê-la convencer Marilyn Densham de que seu marido era reconhecido publicamente como um grande homem em sua cidade – e foi uma pena Bill não descobrir sobre a grande ajuda que ela lhe deu –, porém por consequência ela acabou magoando Cara Lynn, sua filha que já passou tantos anos longe de sua mãe que ter que aguentar ser ignorada mais uma vez, nem que fossem por alguns minutos, foi a gota d’água para ela. Como resultado: um pequeno vexame na festa beneficente, com Nicki sendo algemada por porte de armas.
É notável seu empenho em querer tirar Cara Lynn da Juniper Creek pois mostra sua mágoa daquela comunidade ao ponto de não querer que sua filha passe pelas mesmas coisas que ela passou. Mas se ela se importava tanto assim
com o destino da menina, por que não resolveu ajudá-la antes? Por que se distanciou dela? Acredito que essa atitude de Nicki prova uma mudança recente em seu caráter. Há alguns anos, ela não se incomodava de ser tratada apenas como um instrumento para chegar até Bill por seu pai ou mesmo com o fato de ser apenas uma das esposas de Bill. Porém, agora parece ficar claro que ela já não aguenta mais ter seus sentimentos e sua voz sufocada por sua mãe, irmão, suas esposas-irmãs e mesmo seu marido, com quem ressente não poder ter uma vida pública. Será que aos poucos estamos vendo Nicki passar uma crise de fé, de questionamento dos princípios de sua própria religião?
De volta a Utah as coisas não poderiam estar piores. Apesar dos esforços de Barb, a barreira cultural está falando mais alto e o clima dentro do cassino está cada vez mais pesado, pois seus funcionários, em sua maioria de origem indígena, não conseguem aceitar ordens de pessoas brancas. Mais tarde ficamos sabendo que a situação daquele povo é mais complicada do que parece, a constante ameaça de drogas na região está acabando com a população local – que já não tem mais nada a perder entrando nesse ramo ilícito –, dessa forma, o cassino representa mais do que um mero investimento para essa gente, representa uma saída, uma oportunidade de se opor contra tudo o que tem acontecido na região, ainda que proporcionado sobretudo por mórmons ávidos por gastar dinheiro. É uma situação mesmo muito delicada, pois se os indígenas já não têm espaço na sociedade norte-americana – realidade que também não é muito diferente no Brasil – é por culpa dos brancos que invadiram sua região e agora a única saída para essa gente está em tentar se encaixar nessa cultura a que não pertencem e, o pior, no humilde papel de serventes. Com tanto pano de fundo por trás dessa história não é de se surpreender que eles fiquem mais do que irritados com as palestras didáticas e irritantes de Barb. Começo a me perguntar se o melhor não seria substitui-la. Talvez agora ela comece a ver esse mundo de uma maneira diferente, mas até o momento sua presença no cassino só tem ajudado a piorar a relação entre essas duas culturas.
Mesmo assim essa história ainda vai render muitas complicações ainda mais agora que Sarah resolveu abrigar uma viciada em drogas em sua casa, sem saber, claro, após Barb tê-la acidentalmente atropelado. Já sabemos que essa será a última temporada de Amanda Seyfried em Big Love e confesso que já começo a imaginar um destino trágico para a personagem.
Em Juniper Creek a situação também não era a das melhores, será que Bill está sabendo que a comunidade está construindo uma nova sede no Kansas? E aliado com a ambição de seu amante, Alby pareceu determinado a superar seu pai, mesmo contra o próprio Roman Grant, que fez sua fantasmagórica aparição para criticar a homossexualidade de seu filho. Falando em Roman, Joey está mesmo enrascado, com a fúria de JJ por causa de Cara Lynn, o assassinato do profeta está prestes a ser revelado e as consequências desse crime podem ser devastadoras na carreira de um homem que está tentando se tornar senador. A única coisa que incomoda em JJ é falta de clareza de suas intenções, será mesmo que seu objetivo em Utah é acabar com Bill? Por quê? Parece uma atitude muito infantil para um personagem tão sinistro.
Propositadamente deixei a cena mais chocante do episódio para ser comentada no final. Logo nos primeiros minutos de “Strange Bedfellows” descobrimos que Marge teria uma oportunidade especial ao se apresentar no horário nobre, onde seria assistida por mais de um milhão de telespectadores. Para comemorar o fato, Marge incentivou sua família a comparecer nos bastidores da gravação, o que foi prontamente recusado por uma Barb ocupadíssima. Por um golpe do destino, a invasão assustadora de JJ na noite anterior ao “grande dia” fez com que Ben surgisse como o homem da família naquele momento, expulsando JJ e passando a noite no sofá da casa de Marge. Apenas por isso ele presenciou a decepção de Marge no dia seguinte ao perceber que não terá ninguém a apoiando durante as gravações logo mais à noite. Com isso, ele resolveu lhe fazer uma surpresa, cancelando um show de sua banda para acompanhar a estreias da terceira esposa de seu pai no horário nobre.
E o resultado? Marge ficou tão feliz que não pensou duas vezes e beijou Ben na boca! A atitude é mais do que surpreendente pois desde a temporada passada sabemos dos sentimentos de Ben por Marge, mas até o momento elas não tinham sido correspondidas! E para complicar ainda mais a situação já delicada, a chefe de Marge interpretou mal o que viu e colocou o rosto de Ben em cadeia nacional como se ele fosse o namorado/marido de Marge! E Barb presenciou a cena da televisão de sua casa! São necessárias mesmo muitas exclamações para descrever esse momento maravilhoso e igualmente dramático que irá, certamente, causar uma nova crise na família Henrickson. Ainda bem que hoje à noite já temos mais um episódio!


UOU, foi um episódio mesmo brilhante, apesar de ter tido alguns momentos parados..
Para já, Big Love continua em grande … mas pergunto-me, onde pára os negócios da Home Plus?
Parabéns pela excelente review que tão bem ilustra os acontecimentos do episódio
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