Breaking Bad (3.02) – Caballo sin Nombre

I can’t be the bad guy

Os cavalos sempre tiveram um significado simbólico. No exórdio dos tempos (sim, vou utilizar palavras ditas caras) a figura do animal representava a passagem e consequente transporte da alma para o mundo dos mortos. Para além disso, os cavalos, segundo o Infopédia, são os filhos da noite e dos mistérios, representando a morte e a vida. E, surpresa das surpresas, estão associados ao fogo e a água. Muitos outros significados podem ter os cavaleiros de quatro patas, mas fiquemos por aqui. Perguntam vocês porquê? Porque chegamos ao cerne da questão. E não é o que está na Suíça (está piada já foi demasiada vezes usada, mas acho que vem a propósito, visto as notícias que têm vindo a público), mas sim o de Breaking Bad. Se virmos, o cavalo é mencionado, pelo menos, em três momentos do episódio. O primeiro é o próprio título: cavalo sem nome. Depois temos a música de abertura do episódio: A Horse With No Name que, traduzindo, vai de encontro ao título. E, para acabar, numa fala de Saul: You should get back on the horse and do what do you best. Três momentos com a menção ao cavalo. E, se no episódio passado tivemos o fogo, desta vez tivemos a água como referência do episódio. Breaking Bad passa pelos antípodas dos elementos e, mesmo assim, mantém o significado do episódio e o ritmo.

Mas, e se o cavalo é o filho da noite, começamos o episódio com o dia. Um dia nebuloso, mas, mesmo assim, dia. Vemos Walter White a cantar “A Horse With No Name”, divertido, como se a vida corre-se lindamente. O careca da série anda mesmo num cavalo sem nome e, por isso, não o consegue controlar. Seguindo a corrente epicurista, parece aceitar o destino e não o contrariar, deixando-se levar pela corrente até à foz. Umas sirenes despertam-no. Recordam-no do passado. Se no passado Walter, ao ver uma sirene, parou o carro, desta vez seguiu despreocupado. O pior é que, ao contrário do passado, agora Mr. White é parado pela polícia. A preocupação aumenta, a música pára, os problemas são recordados. E, tal como pensava, o passado ataca. Mas, ao contrário dos seus piores pensamentos, o que ataca são as recordações que mantém desse passado: o vidro do carro. Nesse momento, e ao ver que a sociedade tenta que ele esqueça o passado (o que poderia significar o retorno aos erros), contra-ataca. Walter demonstra que o ser sereno e alegre da abertura é uma mentira. Das muitas que ele tem. Mas o homem que sai do carro é um homem descontrolado, com um espírito “todo o mundo está contra mim”. Tenta rejeitar aquilo que Jesse já aceitou: ele é “bad guy”.

Depois, e com Hank a ir busca-lo a esquadra, vemo-lo a lavar a roupa. Uma imagem característica da série é a lavagem de dinheiro, literalmente, por parte deste. O paralelismo com essa imagem é clara mas, ao surgir Saul, tudo desaparece. Não foi preciso telefonema, visto que o advogado tem em White o seu “golden ticket” (como diz o actor no Inside do segundo episódio) para subir na vida. E tenta, por tudo, que Walter volte a cozinhar. Como bom advogado que é, consegue construir uma bela argumentação sobre Skyler e o seu divórcio mas, mesmo assim, vemos um Walter a tentar quebrar com o passado e a não cair nesta. Mas não se desiste de uma fortuna assim facilmente. E, por isso, Saul lança-se a raiz do problema: Skyler.

A (ex-)mulher de Mr. White vive uma luta titânica contra o mundo. O mundo do seu filho, o mundo da sua família, o mundo do crime. Já tínhamos visto o seu filho contrariado com ela, agora vemos Hank e Marie a duvidar. E, claro, depois temos o fantástico diálogo entre os cônjuges, onde parece que a verdade vai ser revelada, mas por fim fica sozinha. Mas continuando com Skyler e a sua luta. Vemos, neste episódio, que a personagem, nesta luta, começa a perder-se. Primeiro porque, e apesar de ter razão, não pode falar dela pois, como Saul disse, seria uma explosão. Assim, e entre a espada e a parede, a personagem prefere perder o filho do que o filho se perder com o pai. Mas, e adicionado a isso, temos o seu chefe que, convém recordar, anda a ser resguardada pela mesma. Cria-se aqui o cenário que se aproxima com o de Hank: uma rapariga decente, inteligente. Uma vida sem rumo aparente. Descobre que tem cancro (sendo, neste caso, Walter o próprio cancro. Ironias). E, assim, surge o romance. Vemos aqui que a mulher não é tão diferente do homem. E, enquanto esta está com a sua nova paixão (?), Walter está a cumprir o acordo feito entre os dois.

Com o filho a revoltar-se e a ir de encontro com o pai, este decide que o lugar mais próprio para este é ao lado da mãe. O telefonema é a tentativa de deixar Skyler tomar as regras para, assim, poder voltar a ter a âncora: a família. Assim, encontramos Walter como um jogador de xadrez que deixa comer um peão (apesar do filho valer muito mais que isto, esta retorno para a casa da mãe é apenas simbólico, visto que Walter Jr. continuará a não aceitar esta nova situação) para, assim, tentar atacar a rainha. Vemos, num momento, Walter a falar com o filho a dizer “a tua mãe tem motivos” mas, de seguida, a tentar contornar esses motivos. Vemos um homem desesperado para retornar ao passado, anterior ao cancro, com todas as armas possíveis. Até uma pizza.

A fantástica pizza. Aquele voo para o telhado é como fosse dizer: eu nem queria a pizza, só fiz isto por ti. E claro que representa a presença de Walter naquela casa. Uma pessoa sempre presente e, mesmo ausente, será recordada. Principalmente pelo filho. Mas, e da cena da pizza, retiro um pormenor: vemos Skyler a argumentar com Walter sobre a sua saída e, após aquele discurso, vemos Walter a dizer: eu trouxe enroladinhos. Fantástica a frase, é o pedido de desculpa que tanto ele quer que Skyler aceite. Mas o bater com a porta faz retornar o Walter que sente que tem tudo contra ele.

Ao acordar vemos Walter na confusão instalada, tanto em casa como na sua vida. Vemos tudo espalhado, tudo confuso. E vemos, do outro lado, Skyler. De novo a série demonstra que é um poema e, mesmo que tentemos retirar todos os significados possíveis da cena, existirá sempre mais um. Mas, mesmo nessa confusão, Walter vê um olho, a olhar para ele. O Big Brother, como lhe visse todos os seus movimentos. E que o seguisse para todo o lado. Este olho de peluche, para além da recordação do acidente, é o olho que ele terá sempre em cima, devido aos erros que cometeu.

E, se extrapolarmos esse olho, podemos ver nele representado aquilo que as mentes da série intitularam “cousins”. Vemos, neste episódio, referenciados logo no começo, quando Hank fala da carrinha que explodiu, o que nos faz entender que, de novo, haverá uma corrida em torno deste arco, tanto da polícia como de Walter. Mas, e continuando com os primos, vemo-los a ir falar com o Tio, o ser que rege a vida por uma campainha. A série é fantástica nesses termos. Ao som da campainha vai-se descobrindo o nome de Walter e, ao som da mesma, começa a aproximar-se o confronto. É das poucas campainhas que eu gosto…

Para acabar esta narrativa, vemos a junção da preparação que o episódio teve. Walter a ir para casa, home suite home. Tentar voltar ao feliz passado, ao passado que tenta agora reconstruir. E vai lá para que? Tomar banho. A água com importância na narrativa pois, para além deste momento, já a tínhamos visto na piscina, quando Walter vai limpa-la. Talvez fazendo aquilo que, quando teve o dinheiro na água, devia ter feito: deita-la ao lixo. Aqui vemos a tentativa de voltar a normalidade. Mas, e do lado de fora, temos os primos que, devido a Walter não estar muito preocupado com o rasto que deixa, encontraram-no facilmente. Assim, e quando parecia que tudo estava para acontecer, vemos uma mensagem: “Pollos”. Nome da companhia de restauração onde Gus Fring trabalha, parece ser um sinal de “por agora deixem tudo assim”. E, assim, tudo acaba bem. Só que o olho fica lá a olhar. O olho que parece guardar. O que se sabe é que parece existir uma rede, com o detective de Saul a ser, por agora, a salvação de White.

Falta-me falar de Jesse. A personagem não teve grande foco mas conseguiu, de um momento para o outro, regressar a casa que lhe pertence. Com 45 dias de reabilitação, a personagem tenta aproximar-se dos pais mas, ao ver estes a afasta-lo, decide por uma decisão radical: prejudica-los o mais que poder. Assim, pede a Saul e começa a chantagem para ficar com a casa que, no fundo, lhe pertence. A jogada do laboratório de meta-anfetaminas é uma ironia fantástica e, depois, a cara dos pais torna-a ainda melhor. Apesar de mudado, Jesse, ao não ver aceite o seu regresso, contra-ataca. E em grande.

Pipocas espalhadas:

  • Que significará o laço que várias personagens tiveram neste episódio? Será uma “recordação” do acidente do avião, como me disse o Ricardo Lima? Parece ser a hipótese mais lógica.
  • Os títulos da série viraram-se para o espanhol. O que tiro daqui? Duas brincadeiras. Primeira, que as três primeiras letras do título do primeiro episódio vem em “nombre”. A segunda é que, substituindo o “n” por “h” de nombre fica “Caballo sin hombre”. Acho que a vida de Walter White está cada vez mais assim.
  • E o Walter Jr. a pensar que o pai entrou na escola com os olhos vermelhos de chorar pela mãe. Mal ele sabe porque é que ele chora.
  • Não era lindo que na pizza aparecesse um corvo, quando Walter volta a aparecer em casa?
  • Para acabar: aposto que estas escutas ainda terão muita importância para a série.

Com ritmo inferior ao anterior, o episódio de Breaking desenvolveu um pouco e deu certezas noutros parâmetros. A série vem fazendo um caminho constante, trazendo boas narrativas. O que não esperava era que o confronto entre os homens das botas e o homem dos óculos se desse já.

4 comentários

  1. Admitamos: aquele lançamento da pizza pro telhado, é de grande habilidade! eheh

    Eu não encontro mais nenhuma explicação se não o “luto”, mas olha que a tua teoria, para mim, é mais lógica que a minha ;)

    A nota é adequada, eu quase nem dei pelo tempo passar, ainda que não tenha havido muitos desenvolvimentos…

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  2. João Paulo /

    Aguerra, PARABÉNS! Que review brilhante fogo!

    Eu realmente não aproveitei nada do episódio pois não consegui concluir nada disso que tu conseguiste analisar. Desde a água, a todas as outras coisas interessantes e curiosas …

    Mas, consegui perceber que os laços azuis eram de solidariedade… não ouviste na conversa entre o Walter e o polícia?:P

    Foi um bom episódio mas só percebi o seu valor após esta brilhante review :D

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    • Muito obrigado pelo elogio. É isso que me acontece, por vezes, com os teus reviews de Damages.

      Pronto, apesar de não teres percebido, estes pormenores são supérfluos, o conteúdo é mais importante. E isso tu percebes-te, visto que gostaste do episódio.

      Quanto aos laços, ouvi a conversa, mas não ouvi a menção a estes.

      E, agora, faça favor de ler alguma coisa sobre éguas para Damages :P

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