Breaking Bad (3.03) – I.F.T.

Honesty is good. Don’t you think?

Havia, há uns certos anos (apesar de ser de essa altura, não sou muito mais velho) um anúncio que, se não me falha a memória, fazia publicidade a uma marca de limpeza e acabava com uma frase emblemática: O algodão não engana. Isto, para um puto nos seus 6/7 anos (mais coisa menos coisa…deve ser mais coisa) ficava na cabeça, pois davam antes dos palhaços de lá do sítio. Mas, e se naquela altura o algodão não enganava, à medida que os anos passavam, o reclame ficou fora das lides televisivas. Mas Breaking Bad começa a chegar-se. Primeiro, tem muita brancura. Depois gosta de fazer limpezas (este episódio começa com uma…mas já lá iremos). E, tal como o algodão, existe também em azul. Breaking Bad também não engana.

Mas, e antes de ir ao episódio propriamente, façamos (eu faço, vocês lêem. Pode ser?) uma reflexão do que tem sido estes primeiros episódios da série. Se a primeira temporada foi para a apresentação e a entrada na série, a segunda serviu essencialmente para desarrumar a casa. A primeira construiu, a segunda desarrumou. Esta desarrumação permitiu-nos ter episódios como o 4 Days Out (para mim o melhor da série, apesar de Phoenix ficar lá próximo) onde notámos que a série se desarrumava. Primeiro porque foi, no meu ponto de vista, o episódio onde a série consegue imprimir o seu lado metafórico em maior quantidade, com a luta pela sobrevivência a ser intercalada com toda a narrativa do telemóvel, que tão importante se tornará. Depois, porque foi neste que se viu que a vida de Walter era a vida de um trapezista sem rede e sem experiência. E, terceiro, porque se começou a ver as brechas na parede que nos revelaria a terceira temporada. Mas nós estávamos tão cegos pela qualidade que nem demos por estas. Mas, e após desarrumar, é preciso arrumá-la. É isso que vimos nestes três primeiros episódios: o arrumar da série. Pegou-se em narrativas passadas, juntam-se as presentes, junta-se um drama familiar e uma história de amor impossível e passa-se bem tudo. Junta-se a famosa pedra (ler cousins) e serve-se na tigela. Pois a série é diferente e, assim sendo, tem de ser servida de forma diferente.

Então, o episódio teve uma carga simbólica muito inferior ao anterior. Há pequenos pormenores que ficaram retidos, mas nada de transcendente como o anterior. E, retirando assim a sua carga metafórica, não gostei tanto deste episódio. Mas, e mesmo assim, a série mantém-se grande. Querem começar a tratar de que ponta? Que tal com o final do episódio passado, ou seja, duplo W? Então vamos lá.

Walter White foi salvo, no último episódio, quase miraculosamente. A aproximação dos “silenciadores” (se virmos, estão sempre em silêncio e também silenciam) foi bem utilizado pela a série, pois permitiu dar ritmo a série. O perigo está, de novo, atrás da porta. Mas, e se acabamos o episódio sem saber qual a rede existente entre o detective, Saul e Gus(tavo), desta vez percebemos que não é necessário telefonar a Saul. A lealdade, e consequente deslealdade, na série é um tema com que ela brinca, demonstrando que quase todos os homens têm um preço. E, se neste caso, a lealdade não era um dado adquirido, pois parecem existir interesses superiores, é interessante ver Saul, que parece ser alguém que se “dê” a quem pague melhor, ser “esfaqueado”. Vamos ver o que sai deste triângulo das Bermudas. O que parece é que, devido as ligações das narrativas, isto pode ser um plano muito maior do que se pensa.

Mas, e despreocupado com isto, anda Walter, com os seus próprios problemas. A narrativa desta abre com a limpeza da pizza, um sinal de tentar fazer de novo aquela casa o seu lar. Pois, apesar de a boa educação dizer que devemos ter cuidado com o que é dos outros, ninguém (ou quase ninguém) cumpre. Pois o que é nosso custou a ganhar, o que é dos outros foi “dado”. Assim, aquela limpeza foi o primeiro sinal de que Walter tentava voltar a sua rotina. Depois deste sinal, acontece a concretização, onde vemos o confronto entre Walter e Skyler. Toda aquela conversa de Saul, que o jogo de Skyler era bluff, que ela não se atreveria a contar a polícia, é posto em prática. Walter torna-se o jogador de poker que sabe que o adversário tem tudo e ele entra em bluff, tentando fazer com que a compaixão de Skyler e o medo desta seja maior que todas as cartas na manga. Entramos num ciclo de normalidade/anormalidade, loucura e calmaria. De um lado Walter, o pai de família, professor. Do outro Skyler, a mãe e trabalhadora. Walter tenta recomeçar do novo, esquecer o passado, pensar que está tudo bem. Nota-se isso quando a mulher espera loucamente pela polícia e ele a corrigir testes. Como se a mulher esperasse uma encomenda e ele a trabalhar para haver dinheiro para esta. Skyler é, nesta altura, o antónimo de Walter: é a loucura em pessoa, que se vê numa situação paradigmática, de onde sairá sempre a perder. E, para piorar a equação, entra o filho pródigo, que regressa para o colo do pai largando os “porcos” (ler “situação familiar actual”) e tentando recuperar a família. Tudo se encontra contra Skyler, até a sua filha pequena que, quando aparece a polícia, resolve chorar e ver o seu pai a pegar-lhe ao colo. Skyler ficou em posição onde a defesa tornava-se impossível e a única forma era recuar para reagrupar, para depois atacar. E é isso que tenta.

Primeiro, tenta afastar o pai da filha, ao fechar-lhe a porta do quarto quando esta chora. Depois tenta ir por meios legais, ao ir a advogada. É aí que, pela primeira vez, decide abrir-se. Todos nós precisamos de desabafar pois, se não, o peso torna-se demasiado e afundamo-nos. Skyler, ao ver que a sua vida estava a retomar ao que era anteriormente, sente isso e nada melhor que surgir agora a relação privilegiada entre cliente e advogado. É como se desabafar a um psicólogo, só que sem as perguntas incómodas. Do outro lado surge o contraponto: Walter a tentar reparar a situação e não fazer que nada se passa. Surge assim o dinheiro que Hank transportou. A série consegue transmitir-nos, de uma forma muito clara, que aquilo é uma tentativa de Walter comprar a família. Mas também mostra que é a principal razão da separação desta. Pois aquele dinheiro, apesar de qualquer coisa que Walter diga, é a representação do passado e de tudo o que Walter fez. E Skyler (ainda) não aceitou isso.

E, quando vê todas as formas de ataque a esgotarem-se, lança-se naquela mais pessoal: a destruição do que resta a Walter: a família. E, assim, surge o caso com o chefe de Skyler, sempre apaixonado por esta e a quem já viu ser cantado os parabéns de forma muito especial. É a quebra da ideia de família para Walter que, quando se vê confrontado, larga toda a calma que tinha. Skyler atacou no pior ponto que podia atacar e, agora, a resposta de Walter será maquiavélica. Ou pelo menos espera-se. Pois o que resta a Walter está cada vez mais fragmentada.

Em outra onda está Jesse, ainda a recuperar da morte da ex-namorada. Ainda em luto, situa-se na fase de depressão, ainda a aceitar o passado que, apesar de assimilado, ainda faz confusão. Assim tenta ouvir por uma última vez a voz desta, tentando-se ligar ao único amor que teve. E fá-lo, ligando para o número de telefone desta, trazendo o som de partida. Foi essencialmente a passagem da depressão para a aceitação que vemos. Ao ver que o contacto foi quebrado, Jesse aceita tudo o que passou e, tendo já aceitado ser o bad guy, decide fazer um que fez durante toda a sua vida: cozinhar. Claro que incentivado por Saul, que vê a galinha dos ovos de ouro a fugir-lhe por entre os dedos. Mas parece que agarrou numa das patas. Resta saber se consegue segurar a outra.

Depois, e de outro lado da narrativa, temos Hank e o seu regresso ao passado. O regresso a El Paso. Hank não foi muito bem aceite por lá e este regresso faz regressar a espiral que passou. Assim tenta escapar, tenta fugir desta realidade e encontrar algo em que se possa fixar. Tal como em House, onde a personagem principal se lesionava gravemente para “esconder” as dores na perna, Hank também tenta arranjar algo transcendente. E, assim, entra numa luta de bar por um mero tráfico. Hank está como se viu ao espelho: partido, diferente. Vamos ver se a série pega de novo nesta narrativa.

Para acabar, temos a abertura com uma personagem do passado, que assim completava algumas pontas soltas. Temos o aparecimento do chefe do cartel que, primeiro, começa por matar Tortuga, com ajuda dos cousins. Depois, aparecem estes a Gus e começa a conversa. Gus ainda vê em Walter uma mina a explorar mas parece que o carrinho não chegará muito longe, visto que tanto Salamanca, ou, como até agora tratado, Tio, como os primos não ficaram muito tempo a espera. A vingança serve-se fria mas rápida.

Pedaços de pizza:

  • Será que teremos de novo umas meta-anfetaminas com sabor picante? Ou será azul?
  • Os jogos de bastidores da vida de Walter são o melhor da série. E, claro, a campainha do Tio. Toca leve, levemente, como quem chama por mim. Que sairá daqui?
  • A série mostrou-nos planos dos protagonistas da série deitados. É isso que a série tenta dizer: apesar de separados, as personagens ainda estão e estarão juntas. E, para além disso, demonstra que estão mais acordadas que nunca, a procura de uma solução para os problemas.
  • A cena final é linda. A frase que abre esta review, antecedida da revelação de Skyler, é perfeita. De novo digo: as grandes séries vêm-se nos pequenos pormenores.
  • Última pergunta: será que a proposta dos 3 milhões estará de pé?

A série volta-nos a dar um episódio consistente que, apesar de não ser tão bom como os anteriores, serviu para arrumar a casa. Vamos ver o que sai daqui. Mas estou a ver a série a retomar o caminho do cozinhado. Só que não da sopa de pedra.

8 comentários

  1. Já li e revi a review, excelente como sempre.
    Adoro as metáforas.
    Nota adequada :)

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  2. José Pedro /

    A proposta dos 3 milhões passou de proposta a obrigação.

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  3. João Paulo /

    Gostei muito do episódio, por ter servido para limpar arestas, basicamente.

    E apesar de concordar com a nota, acho que o episódio foi superior ao anterior, o que é um pouco contraditório :p

    A review também brilhante, sempre a reparar nos pequenos pormenores que dão brilhantismo à série :)

    Só não estou a par dessa proposta dos 3 milhões a que te referes O.o

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    • A que o dono da loja de frangos lhe fez.

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    • Começando por agradecer o elogio, entro em parte na tua ambiguidade de achar este episódio superior ao anterior mas classifica-lo como inferior. Isto porque foi mais parado, serviu para concretizar o passado e, assim, ficar mais “limpinho”. E, assim, foi interior, apesar de, talvez, ter passado melhor.

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