Honesty is good. Don’t you think?
Havia, há uns certos anos (apesar de ser de essa altura, não sou muito mais velho) um anúncio que, se não me falha a memória, fazia publicidade a uma marca de limpeza e acabava com uma frase emblemática: O algodão não engana. Isto, para um puto nos seus 6/7 anos (mais coisa menos coisa…deve ser mais coisa) ficava na cabeça, pois davam antes dos palhaços de lá do sítio. Mas, e se naquela altura o algodão não enganava, à medida que os anos passavam, o reclame ficou fora das lides televisivas. Mas Breaking Bad começa a chegar-se. Primeiro, tem muita brancura. Depois gosta de fazer limpezas (este episódio começa com uma…mas já lá iremos). E, tal como o algodão, existe também em azul. Breaking Bad também não engana.
Mas, e antes de ir ao episódio propriamente, façamos (eu faço, vocês lêem. Pode ser?) uma reflexão do que tem sido estes primeiros episódios da série. Se a primeira temporada foi para a apresentação e a entrada na série, a segunda serviu essencialmente para desarrumar a casa. A primeira construiu, a segunda desarrumou. Esta desarrumação permitiu-nos ter episódios como o 4 Days Out (para mim o melhor da série, apesar de Phoenix ficar lá próximo) onde notámos que a série se desarrumava. Primeiro porque foi, no meu ponto de vista, o episódio onde a série consegue imprimir o seu lado metafórico em maior quantidade, com a luta pela sobrevivência a ser intercalada com toda a narrativa do telemóvel, que tão importante se tornará. Depois, porque foi neste que se viu que a vida de Walter era a vida de um trapezista sem rede e sem experiência. E, terceiro, porque se começou a ver as brechas na parede que nos revelaria a terceira temporada. Mas nós estávamos tão cegos pela qualidade que nem demos por estas. Mas, e após desarrumar, é preciso arrumá-la. É isso que vimos nestes três primeiros episódios: o arrumar da série. Pegou-se em narrativas passadas, juntam-se as presentes, junta-se um drama familiar e uma história de a
mor impossível e passa-se bem tudo. Junta-se a famosa pedra (ler cousins) e serve-se na tigela. Pois a série é diferente e, assim sendo, tem de ser servida de forma diferente.
Então, o episódio teve uma carga simbólica muito inferior ao anterior. Há pequenos pormenores que ficaram retidos, mas nada de transcendente como o anterior. E, retirando assim a sua carga metafórica, não gostei tanto deste episódio. Mas, e mesmo assim, a série mantém-se grande. Querem começar a tratar de que ponta? Que tal com o final do episódio passado, ou seja, duplo W? Então vamos lá.
Walter White foi salvo, no último episódio, quase miraculosamente. A aproximação dos “silenciadores” (se virmos, estão sempre em silêncio e também silenciam) foi bem utilizado pela a série, pois permitiu dar ritmo a série. O perigo está, de novo, atrás da porta. Mas, e se acabamos o episódio sem saber qual a rede existente entre o detective, Saul e Gus(tavo), desta vez percebemos que não é necessário telefonar a Saul. A lealdade, e consequente deslealdade, na série é um tema com que ela brinca, demonstrando que quase todos os homens têm um preço. E, se neste caso, a lealdade não era um dado adquirido, pois parecem existir interesses superiores, é interessante ver Saul, que parece ser alguém que se “dê” a quem pague melhor, ser “esfaqueado”. Vamos ver o que sai deste triângulo das Bermudas. O que parece é que, devido as ligações das narrativas, isto pode ser um plano muito maior do que se pensa.
Mas, e despreocupado com i
sto, anda Walter, com os seus próprios problemas. A narrativa desta abre com a limpeza da pizza, um sinal de tentar fazer de novo aquela casa o seu lar. Pois, apesar de a boa educação dizer que devemos ter cuidado com o que é dos outros, ninguém (ou quase ninguém) cumpre. Pois o que é nosso custou a ganhar, o que é dos outros foi “dado”. Assim, aquela limpeza foi o primeiro sinal de que Walter tentava voltar a sua rotina. Depois deste sinal, acontece a concretização, onde vemos o confronto entre Walter e Skyler. Toda aquela conversa de Saul, que o jogo de Skyler era bluff, que ela não se atreveria a contar a polícia, é posto em prática. Walter torna-se o jogador de poker que sabe que o adversário tem tudo e ele entra em bluff, tentando fazer com que a compaixão de Skyler e o medo desta seja maior que todas as cartas na manga. Entramos num ciclo de normalidade/anormalidade, loucura e calmaria. De um lado Walter, o pai de família, professor. Do outro Skyler, a mãe e trabalhadora. Walter tenta recomeçar do novo, esquecer o passado, pensar que está tudo bem. Nota-se isso quando a mulher espera loucamente pela polícia e ele a corrigir testes. Como se a mulher esperasse uma encomenda e ele a trabalhar para haver dinheiro para esta. Skyler é, nesta altura, o antónimo de Walter: é a loucura em pessoa, que se vê numa situação paradigmática, de onde sairá sempre a perder. E, para piorar a equação, entra o filho pródigo, que regressa para o colo do pai largando os “porcos” (ler “situação familiar actual”) e tentando recuperar a família. Tudo se encontra contra Skyler, até a sua filha pequena que, quando aparece a polícia, resolve chorar e ver o seu pai a pegar-lhe ao colo. Skyler ficou em posição onde a defesa tornava-se impossível e a única forma era recuar para reagrupar, para depois atacar. E é isso que tenta.
Primeiro, tenta afastar o pai da filha, ao fechar-lhe a porta do quarto quando esta chora. Depois te
nta ir por meios legais, ao ir a advogada. É aí que, pela primeira vez, decide abrir-se. Todos nós precisamos de desabafar pois, se não, o peso torna-se demasiado e afundamo-nos. Skyler, ao ver que a sua vida estava a retomar ao que era anteriormente, sente isso e nada melhor que surgir agora a relação privilegiada entre cliente e advogado. É como se desabafar a um psicólogo, só que sem as perguntas incómodas. Do outro lado surge o contraponto: Walter a tentar reparar a situação e não fazer que nada se passa. Surge assim o dinheiro que Hank transportou. A série consegue transmitir-nos, de uma forma muito clara, que aquilo é uma tentativa de Walter comprar a família. Mas também mostra que é a principal razão da separação desta. Pois aquele dinheiro, apesar de qualquer coisa que Walter diga, é a representação do passado e de tudo o que Walter fez. E Skyler (ainda) não aceitou isso.
E, quando vê todas as formas de ataque a esgotarem-se, lança-se naquela mais pessoal: a destruição do que resta a Walter: a família. E, assim, surge o caso com o chefe de Skyler, sempre apaixonado por esta e a quem já viu ser cantado os parabéns de forma muito especial. É a quebra da ideia de família para Walter que, quando se vê confrontado, larga toda a calma que tinha. Skyler atacou no pior ponto que podia atacar e, agora, a resposta de Walter será maquiavélica. Ou pelo menos espera-se. Pois o que resta a Walter está cada vez mais fragmentada.
Em o
utra onda está Jesse, ainda a recuperar da morte da ex-namorada. Ainda em luto, situa-se na fase de depressão, ainda a aceitar o passado que, apesar de assimilado, ainda faz confusão. Assim tenta ouvir por uma última vez a voz desta, tentando-se ligar ao único amor que teve. E fá-lo, ligando para o número de telefone desta, trazendo o som de partida. Foi essencialmente a passagem da depressão para a aceitação que vemos. Ao ver que o contacto foi quebrado, Jesse aceita tudo o que passou e, tendo já aceitado ser o bad guy, decide fazer um que fez durante toda a sua vida: cozinhar. Claro que incentivado por Saul, que vê a galinha dos ovos de ouro a fugir-lhe por entre os dedos. Mas parece que agarrou numa das patas. Resta saber se consegue segurar a outra.
Depois, e de outro lado da narrativa, temos Hank e o seu regresso ao passado. O regresso a El Paso. Hank não foi muito bem aceite por lá e este regresso faz regressar a espiral que passou. Assim tenta escapar, tenta fugir desta realidade e encontrar algo em que se possa fixar. Tal como em House, onde a personagem principal se lesionava gravemente para “esconder” as dores na perna, Hank também tenta arranjar algo transcendente. E, assim, entra numa lut
a de bar por um mero tráfico. Hank está como se viu ao espelho: partido, diferente. Vamos ver se a série pega de novo nesta narrativa.
Para acabar, temos a abertura com uma personagem do passado, que assim completava algumas pontas soltas. Temos o aparecimento do chefe do cartel que, primeiro, começa por matar Tortuga, com ajuda dos cousins. Depois, aparecem estes a Gus e começa a conversa. Gus ainda vê em Walter uma mina a explorar mas parece que o carrinho não chegará muito longe, visto que tanto Salamanca, ou, como até agora tratado, Tio, como os primos não ficaram muito tempo a espera. A vingança serve-se fria mas rápida.
Pedaços de pizza:
- Será que teremos de novo umas meta-anfetaminas com sabor picante? Ou será azul?
- Os jogos de bastidores da vida de Walter são o melhor da série. E, claro, a campainha do Tio. Toca leve, levemente, como quem chama por mim. Que sairá daqui?
- A série mostrou-nos planos dos protagonistas da série deitados. É isso que a série tenta dizer: apesar de separados, as personagens ainda estão e estarão juntas. E, para além disso, demonstra que estão mais acordadas que nunca, a procura de uma solução para os problemas.
- A cena final é linda. A frase que abre esta review, antecedida da revelação de Skyler, é perfeita. De novo digo: as grandes séries vêm-se nos pequenos pormenores.
- Última pergunta: será que a proposta dos 3 milhões estará de pé?
A série volta-nos a dar um episódio consistente que, apesar de não ser tão bom como os anteriores, serviu para arrumar a casa. Vamos ver o que sai daqui. Mas estou a ver a série a retomar o caminho do cozinhado. Só que não da sopa de pedra.

Já li e revi a review, excelente como sempre.
Adoro as metáforas.
Nota adequada
O que achas?
0
0
E eu agradeço a revisão e o elogio. E, claro, fico sempre contente de adorares as metáforas…da série.
O que achas?
0
0
A proposta dos 3 milhões passou de proposta a obrigação.
O que achas?
0
0
Mesmo. Apesar de não acreditar que ele aceite já no próximo episódio…
O que achas?
0
0
Gostei muito do episódio, por ter servido para limpar arestas, basicamente.
E apesar de concordar com a nota, acho que o episódio foi superior ao anterior, o que é um pouco contraditório :p
A review também brilhante, sempre a reparar nos pequenos pormenores que dão brilhantismo à série
Só não estou a par dessa proposta dos 3 milhões a que te referes O.o
O que achas?
0
0
A que o dono da loja de frangos lhe fez.
O que achas?
0
0
Ah! Obrigado, não me lembrava x)
O que achas?
0
0
Começando por agradecer o elogio, entro em parte na tua ambiguidade de achar este episódio superior ao anterior mas classifica-lo como inferior. Isto porque foi mais parado, serviu para concretizar o passado e, assim, ficar mais “limpinho”. E, assim, foi interior, apesar de, talvez, ter passado melhor.
O que achas?
0
0