O pessoal que me acompanha nestas lides da escrita já conhece o meu gosto por Pink Floyd. A banda de Cambridge é daquelas que, a medida que a Terra percorre o seu movimento de translação, volta ao reportório dos meus ouvidos. E sempre que a oiço encontro algo mais na letra, na música. Assim sendo, e porque a Terra continua a insistir em dar voltas sobre o Sol, não entendendo que volta sempre ao mesmo lugar, os Pink Floyd voltam a estas lides narrativas, ou tentativa disso. Voltam com “Time”, a música que começa com relógios a correr contra os ponteiros. Encontra-se ali, metido no meio de uma guitarradas, estes pequenos versos: “You are young and life is long and there is time to kill today / And then one day you find ten years have got behind you / No one told you when to run, you missed the starting gun”. Nada melhor que chamar estes versos num episódio que temos o confronto entre Michael futuro e o presente. Burt Reynolds é o convidado para fazer de Michael com cabelos brancos.
Mas peguemos de novo nos versos sábios dos Pink Floyd. Temos um confronto entre duas realidades: a de um jovem que tem tempo para matar hoje mas que, passados 10 anos, percebe que esses 10 anos não regressam e já se encontra atrasado na vida. Pouco disso se vê em Michael Westen, à primeira vista. A única palavra que parece relacionada é “kill”. E pouco mais. Mas, espreitando um pouco mais, e levando os versos um pouco mais longe, vemos alguém que se perde hoje e que, após algum tempo, percebe que essa perda foi em demasia. Vemos o passado e as consequências no futuro. Vemos Michael Westen e Paul Anderson. Um aviso, pois todos sabemos que a idade é um posto.
Este episódio é, para além de um episódio com um caso, para além de um cliente, um aviso. Um “Perigo” gritante. Com aqueles pontos de exclamação pretos sobre um fundo branco e vermelho à volta, para chamar à atenção. Mas comecemos, antes de mais nada, pelo caso. Paul Anderson é um espião queimado espalhado também pelas praias de Miami. Primeira semelhança. Já com cabelos brancos espalhados pela nuca, com uma vida descansada e tal e coisa, a servir bonita rapariga no bar, talvez à espera de algo mais. É alguém na idade da reforma, mas uma reforma activa. Até que aparecem uns russos, vindos de não sei aonde, que tentam vingar tudo o que foi feito por o nosso novo espião no passado, numa guerra congelada no tempo entre russos e americanos. É este o ponto de partida…
A partir daí há o que Burn Notice tem de habitual. Acção há grande e à francesa, com um bocado de Vodka a mistura, pois os russos são convidativos a uns copos. De todo o caso, com um epílogo interessante, retiro umas notas: a carreira internacionalmente reconhecida de Michael Westen, ao ser reconhecido como uma lenda pelos russos. É bom ver que a série não se esquece daquilo que é, que retrata a vida de um espião com passado, e não utilize esse passado para ir buscar inimigos. Também vai buscar algumas lendas sendo esta principalmente visível na cena da casa, onde os russos dizem que, apesar da vantagem de 4-1, é o Westen que está lá fora…muito bom. Outra nota é a introdução da mãe do nosso espião no caso, mostrando uma utilidade que poucas vezes a vimos ter. E, claro, o ódio global que as pessoas têm pelos políticos. Coitado do Sam, que ficou pendurado…
Assim sendo, e com o caso arrumado, sobra-nos tempo para pensar em outras coisas. A primeira é no futuro nada risonho que o nosso espião poderá ter. Vemos, primeiro, um homem solitário, refugiando-se numa vida nada igual a antiga, escondido do mundo após ter sido atirado aos cães pelo seu país. A solidão de Paul começa a ver-se em Michael, principalmente na transformação que está a ter: apesar de ainda ser sentimental, começa a atenuar-se este lado. Começa a demonstrar uma frieza enorme, após ter passado por alguns solavancos. A segunda é a falha da memória, algo que ainda não se demonstra, mas devido a vida louca vivida por Michael, é algo previsível. A série dá-nos este aviso, mostra-nos o futuro nada risonho para o espião de Miami. Esperemos que Michael compreenda o aviso e modifique. Está aqui um ponto interessante na série.
Outro ponto interessante é a narrativa de Jesse, que tenta voltar a sua vida normal. O cerco, aqui, aperta-se. Michael vai-se safando, mas Jesse vai-se aproximando aos poucos e poucos. Esta ambiguidade, ao vermos Michael a fazer um jogo de xadrez muito paciente, é algo que foi bem introduzido na série, pois o espião tem de utilizar Jesse para conquistar terreno no caso complexo que tem nas mãos mas não pode perder Jesse neste mesmo caso, devido a um erro cometido. Neste episódio isso foi bem jogado com Fiona, sendo ela a testa de ferro de Michael, para além do ex-patrão de Jesse. Pois, para além disso, a série consegue avançar mais um pouco no arco. Assim a série consegue criar, primeiro, ritmo. Depois consegue ter sempre duas linhas narrativas prontas a ser utilizadas, até conciliadas. Tudo isto faz com que a mid season finale que se começa a aproximar promete muito.
Num episódio mais virado para o futuro que para o presente, a série consegue ter um bom episódio, mas nada de especial. Valeu pelas piadas, pelo caso e pelo Burt Reynolds. As praias de Miami são bem fornecidas de espiões queimados.

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