Caprica (1.01) – Pilot

Este episódio há já vários meses que está disponível e esta série é uma forte aposta do canal syfy para substituir BattleStar Galactica. Como provavelmente já todos sabem Caprica é um spin-off de BSG, passa-se 58 anos antes dos eventos da série original e serve como ponto para se mostrar a criação dos Cylons e o que são realmente estes seres robóticos que acabaram por ter um lado humano muito forte. Caprica é uma das 12 colónias humanas sempre referidas em BSG, é o planeta principal da espécie humana, o centro cultural e político das colónias. Apesar de Spin-off, notei que os criadores se tentaram afastar bastante da série original, dando a esta outros méritos e fazendo valer-se por ela própria. Os temas de BSG, no entanto, como religião e filosofia são ainda mais evidentes, a luta monoteísmo, politeísmo surge em força logo desde de inicio por exemplo. Para mim a atitude de criarem independência é boa, resta saber se a série dá frutos ou não neste formato. Para mim este piloto teve coisas boas e más, as más deixam-me ligeiramente preocupado com o caminho que vai tomar a série, pelo que o piloto acaba por ser um bocado inferior aquilo que é recomendável.

Uma grande catástrofe, claramente uma referência aos atentados às Torres Gémeas, é o ponto de partida para que dois homens de duas famílias e dois meios diferentes se juntem no luto. De um lado os Graystone do outro os Adama. Daniel Graystone é uma figura conhecida e influente em Caprica, a sua empresa é responsável pela criação dos melhores robots e das melhores tecnologias. Uma dessas tecnologias é uma espécie de jogo de computador em que, através de uns óculos especiais, os jogadores entram numa vida virtual, onde qualquer programação é possível, pelo que neste mundo virtual os jovens têm um forte acesso a drogas, sexo e violência. Zoe Graystone, filha de Daniel e frequentadora deste jogo, conseguiu criar, ela própria, vidas virtuais, um alter-ego, com os seus pensamentos, atitudes e maneira de ser. Zoe criou uma Zoe virtual, exactamente igual a ela. Zoe é a protagonista deste episódio piloto e algo me diz que será responsável pelo desenrolar de todos os eventos futuros da série.

Para além desta criação Zoe ligou-se de forma muito intensa, com dois amigos, a um movimento religioso, em que veneram um só Deus. Deslocada, procura com os amigos fugir de Caprica para uma família de Acolhimento. A melhor amiga de Zoe decide ficar em Caprica à última da hora e Zoe parte unicamente com o namorado, de comboio. O namorado, Ben Stark, decide terminar com a vida e num atentado terrorista em nome da sua religião monoteísta provocando a morte de todos aqueles que seguiam nessa carruagem. Duas dessas pessoas eram a mulher e filha de Joseph Adama. A partir desta catástrofe o episódio centra-se no luto de ambas as famílias, a Graystone e a Adama. E no encontro entre Daniel Graystone e Joseph Adama. Partilhando o mesmo luto juntam-se numa manobra para aproveitar a tecnologia criada por Zoe para devolver a vida a ambas as suas filhas. Um caminho perigoso, incontrolável, que leva estes dois homens a muitos momentos de dúvida, de esperança e de medo pelos limites que pensam ultrapassar. Sobretudo Adama sente que o que está em jogo é profundamente incorrecto.

Nesta série a criação dos Cylons é atribuída a necessidade de um homem voltar a ter a sua filha. Vendo BSG parece que a grande intenção dos Cylons quando foram criados era de serem máquinas ao serviço do homem, a resposta dada aqui é que os Cylons são a tentativa de um homem de prolongar a vida, trazer as pessoas de volta e usar tecnologia para criar emoções, sensações…seres humanos. Mais do que em toda a série BSG, aqui  é-nos mostrado o porquê dos Cylons se terem tornado tão humanos. No fim do episódio vemos que o primeiro Cylon é uma rapariga, uma menina perdida dentro de um corpo metálico. A tecnologia, os seus limites, há muito que são abordados e as questões colocadas aqui não são novas, no entanto os criadores parecem saber bem o que pretendem mostrar em relação a este avanço tecnológico que existe nestas colónias.

Apesar de para mim o tema abordado ser fascinante a concepção do episódio desagradou-me. Primeiro as questões extra Cylons como sendo os poderes políticos, descriminação e religião não foram muito bem usados na minha opinião. Temos “miúdos” de 16 anos capazes de criar uma forma de vida virtual, capazes de atentados terroristas, etc. O que pretendo dizer é que acho que exageraram na profundidade psicológica das personagens, o que é normalmente uma coisa boa, neste caso tornou inverosímil o que estávamos a assistir. Caprica aparece-nos povoada só por pessoas cheias de ideias demasiado fabricadas usadas para encaixarem os temas que pretendem abordar. Espero que melhore com o tempo neste aspecto.

Outra das coisas que não gostei foi do ritmo do episódio, demasiado lento. Gosto de séries de ritmo lento, dá para aprimorar os diálogos, trazer realidade às personagens. No entanto isso não aconteceu em Caprica, e pareceu demasiado com uma daquelas telenovelas sem graça que tanto Brasil e Portugal têm em excesso. Tal como nas novelas também os espaços exteriores foram descriminados, ou seja, a maioria das cenas passaram-se nalguma sala e no fim de episódio a reciclagem dos espaços já enjoava, isto não é uma sitcom em que isso é regra. Espero que não se esqueçam que esta é uma série sci-fi e apesar de entender o tom mais pessoal e mais de intriga de personagens uma série destas necessita de um mundo rico, o mais detalhado que o orçamento permitir e como é óbvio espero ver as outras colónias e as diferenças para esta Caprica. Também deram demasiado destaque a momentos mortos das personagens enquanto podiam explorar mais do mundo e de mitologia que para nós é desconhecida. As filmagens tem um tom realista mas acho que falta alguma cor à realização, tal como em BSG as imagens surgem como se se filmasse com uma câmara ao ombro, mas aqui não resulta tão bem e afasta-nos das personagens, porque a série tem um grande destaque filosófico e não estilo documentário.

Resumindo o episódio.

Pontos Positivos:

- A maneira como nos são introduzidos os Cylons.

- A explicação, ou principio disso, do que são os Cylons e o principio das suas transferências de mentes.

- Ver William Adama, ainda que criança, permite aquele paralelo com a série principal.

- Ambos os actores principais Daniel Graystone (Eric Stoltz) e Joseph Adama (Esai Morales), bem como Zoe (Alessandra Torresani, fiquem atentos a ela).

Pontos negativos:

- Lentidão do episódio não ajudou neste caso.

- Algumas das personagens secundárias apresentam demasiadas nuances o que as faz perder verosimilhança com a nossa realidade ficando algo encoenrentes estas.

- Caprica como colónia foi pouco explorada, sem fauna, flora (vemos o cão de família apenas) a serem elementos anti-natura, os espaços foram demasiado fechados. A excepção é a casa dos Graystone.

- Os temas religião, política e descriminação tornaram-se chatos ao longo do episódio, e sem alma.

7 comentários

  1. Secalhar dou uma espreitadela..

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    • Tiago Duarte /

      Vias Battlestar Galactica?

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      • Nao… apesar de ser um tema que me fascina, nunca “fui a tempo” de acompanhar…

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        • Tiago Duarte /

          Àqueles que viram em recomendava ver, sem dúvida, neste primeiros episódios teriam algumas associações com a série base que deveriam agradar.

          àqueles que nunca viram, a série consegue ter grande independência como disse, aliás, não é mesmo requisito ter visto a outra, porque esta é completamente diferente na sua essência base. Mantém os temas mas é uma série nova, nova. Não saberás tanto da mitologia do universo, mas com o tempo também nesta as coisas deverão começar a surgir.
          Como vês pela nota do piloto recomendar a ´série não é óbvio, não agradará a todos de certeza.

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        • Sim, mas não me custa nada ver o piloto e tirar as minhas conclusões. Apesar de confiar nas notas do portal.

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        • Tiago Duarte /

          Vê e depois comenta xD

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  2. Interessante de acompanhar, Caprica perdeu-se um pouco neste episódio. A série precisa de se centralizar mais e, com tantos temas que se querem abordar poderão não conseguir abordar um como queriam. O piloto também é muito longo mas demonstra que a série tem potencial. Agora vamos ver o que sai daqui…

    Já agora, excelente review, Tiago

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