Chuck (3.09) – Chuck Vs. The Beard

Don’t freak out

Certo dia, em certa hora, Sérgio Godinho lembrou-se de escrever. Certo dia, em certa hora, o mundo ganhava versos puros, límpidos. Versos de criança na voz rouca de um adulto. Mas, ainda assim, versos de criança que não soavam a criança se não fossem cantados na voz rouca do Sérgio. Certo dia, em certa hora, Sérgio Godinho decidiu compor uma música. “É tão bom” como título, a música deu a honra que fosse banda sonora de uma série da RTP1, intitulada “Amigos do Gaspar”. Mas música de Sérgio não é música para ficar presa. Ele próprio foi um dos grandes intervenientes pela liberdade (é considerado um cantor que faz música de intervenção). Por isso, o “É tão bom” libertou-se das amarras da televisão, mas não da amizade. A música, lá no refrão, falava-nos assim: É tão bom uma amizade assim / Ai, faz tão bem saber com quem contar. Os amigos, agora não do Gaspar, mas de toda a gente são para as ocasiões. E, neste episódio, Chuck sabe com quem contar: o barbudo Morgan.

Mas antes de saltar já para o final do episódio, comecemos pelo início. Comecemos por um episódio que poucas promessas trazia e se tornou, para quem vos escreve, o melhor da temporada. A série conseguiu, com este episódio, abrir novas pontas fora do campo amoroso, a principal preocupação até agora e, mesmo assim, mantendo tudo no sítio, ou seja, não perturbando o que tinha sido construído. Este pequeno salto, ou seja, de manter (quase) tudo no sítio em termos amorosos (principal arco da série, quer se queira quer não) e mexer nas restantes vertentes da série permitiu que ela solta-se mais umas pontas que, no futuro, virão a ser importantes. Por causa disto é que, do ponto vista deste míope, Chuck atingiu níveis, outra vez, exemplares.

Assim torna-se difícil abordar o episódio. Primeiro, e antes de mais nada, não temos o regresso da Hannah. Isto leva a duas linhas de pensamento. O primeiro é que a Kristin tinha algo para fazer em Smallville e que a perninha que veio fazer a Chuck foi essencialmente isso: mostrar as (bonitas) pernas. Depois, e numa linha mais séria, começam a surgir hipóteses. A primeira é que a “não-morte” da personagem torna-a como uma ponta solta (que novidade!) na série. Jill também tem esse privilégio, o de se manter ausente mas sempre presente, pronto a entrar quando for preciso (e a (bonita) actriz quiser). Hannah (que tem um nome de capicua…interessante) entra nesta categoria, mas em algo mais pacífico. A minha aposta é que entrará como uma combatente de Chuck, numa espécie de “guerra” nos PC’s. Ou, talvez, nem entrará. Para ver no futuro…

Assim, e “encerrada” esta linha de argumento, a série vira-se para outra completamente oposta. Ou melhor, diferente. Oposta não é, pois vê-se que é a demissão da Hannah que começa por desencadear tudo. Morgan concretiza as promessas feitas a Ellie e, em vez de lançar Jeff e Lester (reservados para outra parte do episódio) na perseguição, lança-se a si próprio. Um pequeno erro da série, visto que a investigação não foi verdadeiramente concretizada, nem somente começada. Morgan satisfez-se com a justificação do namoro com Hannah e seguiu a vida. Mas tudo volta a tona e assim a série tomava uma decisão: Morgan ganharia mais importância. A conversa inicial é o indício do que aconteceria: a verdade teria de vir ao de cima, desse por onde desse.

Mas, para isso, foi preciso criar o pano para se pintar. Foi preciso criar uma situação onde a série abrisse os caminhos e nos desse justificações para a ascensão da verdade. Assim surge outro super-herói. Desta vez as honras cabem ao Batman. Diedrich Bader (graças a Deus existir uma coisa chamada IMDB.com) entra assim na série para criar algo que, já na temporada passada, tinha sido feito: introduzir a “companhia rival” (da ultima vez foi a FULCRUM, desta vez é The Ring) na Buy More. No episódio natalício da segunda temporada aparece um “mendigo” que acaba por desencadear acções que, no fundo, viriam a revitalizar a série. Desta vez não é um mendigo, mas sim a expectativa da compra da Buy More. Uma situação que poderia ser unicamente divertida e torna-se muito maior. Esta extrapolação é das melhores situações que Chuck consegue fazer e, de novo, torna-se o ponto-chave do episódio.

Assim, e com este caminho aberto (The Ring na Buy More, neste caso a procura do agente Carmichael), a série abriu o pretexto para a inserção do Morgan. Awesome já tinha sido introduzido de forma semelhante, mas Morgan é algo mais a sério e mais demorado. Vemos todo aquele jogo de máscaras, com Chuck a não deixar cair a sua até ao limite. Vemos Morgan com o “Don’t freak out” ao descobrir a CIA debaixo da Buy More, contando ao seu ex-melhor amigo Chuck, uma situação que se via, e que só podia, ser temporária. Assim, entram os dois no rodopio da The Ring, com Chuck entre a navalha e a parede. E numa situação nada generosa: não tinha a sua guarda de honra.

Esta malta toda estava como guarda de honra a um telefone, um telefone plantado para que estes fugissem do “Castle”. Isto deveu-se aos flashes de Chuck, que desapareceram subitamente (à frente teorizo este pormenor…). Assim estava tudo pronto para a história acabar em grande. Morgan preso com Chuck, ambos sob o domínio da “Aliança”. O episódio atingiu aqui o ponto máximo, com Chuck a ter de desfazer a máscara. Tudo ficou solúvel, tudo ficou visível, translúcido. Tudo se resolveu ao mudar a perspectiva de como se encara o problema. Chuck sentiu-se solto e solto ficou. E, assim conseguiu safar-se da situação.

Mas, tal como quando se parte uma jarra, nunca se colam todos os bocados, também aqui ficam pedaços da vida de Chuck soltos. Ficam com Morgan. A narrativa abre assim uma oportunidade de arranjar alguém com quem Chuck possa contar, alguém de confiança. Abre para o lado mais lógico e, ironicamente, mais emotivo. Awesome tem o coração dado a Ellie, a mentira já não aguenta mais, e Morgan surge no momento certo como escape. E, claro, como novo “palhaço”, digamos assim, da equipa. A cena em que ambos saem do “congelador” é fantástica, demasiado hilariante para que não se consiga aguentar o sorriso.

Na Buy More, temos o regresso de Jeffster. Isto acompanhado com a ameaça do fecho desta. Esta parte da narrativa tornou-se um ponto de escape para tudo o que se passava a volta. Vemos, para além do regresso da banda, com o tema Fortunate Son, dos Creedence Clearwater Revival (o ano é 1969…como diria o Mota Amaral, interessante par de números), vemos Big Mike no seu melhor, com a cena da foto, e Casey a fazer uma perninha. Fantabulástico.

“Nerdisses” do episódio:

  • Comecemos com Awesome e Ellie. Awesome tenta, com as férias, escapar da vida de espião de Chuck mas não o consegue. Isto faz tomar uma decisão (?) radical: viajar para longe. Como diz o povo: para grandes males, grandes remédios. Vamos ver se a série (e as raparigas…) consegue viver sem o Captain Awesome. Mas, para mim, ele não sairá desta.
  • A felicidade do Morgan ao saber o segredo do compincha não dá para resumir nem em mil palavras. Ou talvez se resumiria numa: Awesome. Mas aquela cena é fantástica, adicionada a traulitada dada por este no “Batman”.
  • Já referi que nasce um novo “palhaço” na série. Vimos, também, que Awesome não resultou na Operation Bartowski. Morgan substituirá o Captain? Aposta mais que segura.
  • Dois pormenores sobre o Casey: primeiro a entrada na Buy More. Linda. Depois, temos Jeff a ajuda-lo. Este pequeno pormenor (gosto de pleonasmos) no episódio dá a entender que algo se passará. Veremos Jeff adicionado ao segredo? Se não, para que serviu a cena? Acredito que sim, pois Chuck não lança nada cá para fora sem razão. Fica o apontamento.
  • Foi bonito ver o telefonema de Shaw para a Buy More (e a cena seguinte ainda é melhor…). Deu um sinal de continuidade da série.
  • E Zachary Levi teve a oportunidade de dirigir o episódio. Uma visão diferente, uns planos diferentes. E eu gostei. Foi interessante ver alguém que conhece a série, dirigir um episódio.

Agora faltam as notas finais, mesmo. Primeiro, a teoria que vos queria falar dos flashes de Chuck. Se virmos bem, os flashes de Chuck não é quando ele está emocionalmente instável, tanto para o positivo como para o negativo. Ou seja, quando está muito calmo ou muito pressionado. É quando se sente equilibrado. Quando se exprime. Será que temos aqui a chave deste segredo? Não sei. Mas, se virmos bem, só depois de se exprimir para Morgan sobre Sarah é que ele teve flash.

E, já que falamos de Sarah, falamos do triângulo, que pouco evoluiu. Vimos Chuck a dizer aquilo que sabíamos, vimos Sarah e Shaw “casados” e mais nada. Desta vez ficou a descansar.

Para acabar, o telefonema (o review está muito longo…). O telefonema com que acaba o episódio, adicionado a promessa de Chuck, de atacar The Ring, aproxima-nos cada vez mais do confronto final. Isto foi só a preparação. E agora é que começa a diversão. Acho que este foi o primeiro verdadeiro episódio de Chuck.

10 comentários

  1. Frase do dia: ‘Mas, tal como quando se parte uma jarra, nunca se colam todos os bocados, também aqui ficam pedaços da vida de Chuck soltos.’

    O episódio foi mesmo muito bom, finalmente o Morgan soube de toda a verdade e acho que Ellie e Awesome vão mesmo comprar uma viagem apenas de ida, sem volta.

    Apesar de enorme o review tá muito bom :D asertrhnb

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    • Pensei que ias gostar mais de outra frase: “Assim, entram os dois no rodopio da The Ring, com Chuck entre a navalha e a parede.”

      O Morgan saber a da verdade traz uma nova abertura, quando o Awesome estava a fugir. Quanto a fuga destes, não é coisa que acredito pois ficávamos, primeiro, sem a conselheira de Chuck e, depois, acho que a série não dispensará do todo o drama existente no Awesome. A ver no futuro…

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    • Pensei que ias gostar de outra frase: “Assim, entram os dois no rodopio da The Ring, com Chuck entre a navalha e a parede.”

      Quanto ao episódio, a abertura ao Morgan foi uma forma de abrir um novo poço de água quando o de Awesome estava a ficar seco. Mesmo assim, não acredito na fuga do casal. Primeiro porque Ellie é a principal conselheira da Chuck, depois porque há sempre a tentativa de manter a irmã na sombra quanto ao segredo e, por último, temos sempre o drama do Awesome. Mas vamos ver o que o futuro nos reserva…

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  2. Sobre o tamanho da review, se tiverem a qualidade que esta teve na maneira como explanou o episódio, que sejam todas deste tamanho! Eu pessoalmente não percebo o atrofio com review’s grandes se forem bem escritas. Passando ao episódio..

    No episódio anterior, disse que que o mesmo tinha sido faboloso e o melhor da temporada, mas tava errado..Fiquei impressionado com toda aquela situação romantica, porque fez-me andar no tempo..
    E cheguei a essa conclusão depois de visualizar este episódio, que foi em muitos mais aspectos melhor que o anterior. Conseguiu abranjer uma série de linhas em simultaneo e com a mesma qualidade.. Quando isso acontece numa série, tempos quase sempre um episodio fantastico a roçar a perfeição.

    Mais do que o presente, os responsáveis pela série, jogaram uma grande cartada (Morgan), numa altura em que a série não dislumbrava por situações novas. Por isso, uma vénia pa chuck!!

    A aceitação fácil do Morgan, penso que não seja exagerada, uma vez que a própria caracterização da personagem estava preparada para isto.

    Quanto aos flashs concordo contigo.

    Cumpz

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    • Primeiro, e antes de mais nada, de novo agradeço o elogio. Só referi o aspecto porque notei que estava a ficar maior que o habitual…

      A simultaneidade das linhas narrativas em Chuck é algo existente mas, até agora, não tinha sido utilizada. Tínhamos tido alguns “flashes” dessa tentativa da série, mas a situação romântica tirou espaço da tela. Quando, no episódio anterior, a Hannah ficou de lado, abriu-se o espaço. E, a partir desse momento, foi deixar o episódio fluir.

      E, depois, aprimoraram o episódio com a revelação que era necessário fazer: Morgan conhecer o segredo de Chuck. A porta estava entre-aberta, com aquela prometida investigação, mas agora, ao ficar escancarada, é que conseguimos ver todas as oportunidades existentes. Acho que é mesmo de fazer vénia…

      Cumprz

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  3. Fernando Morais /

    Cara parabens novamente pela review sei que ta ficando repetitivo os elogios mas curto muito suas reviews, longas, bem escritas, bem elaboradas e originais,quem disse que reviews longas sao ruins?? pelo menos nao as suas…. bom falando um pouco o episodio dessa semana de Chuck tenho que dizer que mesmo sendo um fã incondicional da serie me supreendi com a qualidade dessa 3 temporada, ja posso dizer que eles encontraram o tom certo pra serie, essa mescla comedia/açao e uma pitadinha de romance me agrada e muito, estou satisfeitissimo com todos os episodios dessa 3 temporada sem sombra de duvida a melhor de toda a serie, e o que foi esse episodio??? muito bom hem, ate que enfim os Jefester voltaram adorei a musica ficou muito dez alias como a historia passou a maioria na Buy More ficou otimo pra mim o lado comico que alivia a serie se passa toda la nada mais justo do que um episodio quase todo ele por la e o Shaw ta me dando raiva dele, nao gosto do trabalho do Brandon Routh( principalmente como o Super Men o que foi aquilo??) quando ele apareçeu fiquei meio com o pe atras no decorrer da participaçao começei a gostar e ate elogiar ele ta indo bem mas acho q ja saturou o papel pra mim o Shaw deve sair da serie ja n esta como deveria pra mim pelo menos, so espero que de um destino bom pra ele e que ele sai o mais rapido antes que estrague essa supresa que foi o personagem, enfim.. ja me alonguei muito so espero que a serie continue nessa pegada que me agrada demais

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    • E eu torno-me repetitivo, mas digo de novo: obrigado para o elogio.

      Eu, se bem me recordo, a última narrativa passada unicamente na Buy More ocorreu na temporada passada (o natalício) e foi excelente. Parece que episódios lá passados tem efeito galvanizador para a série.

      Quanto ao Shaw, dois apontamentos. Primeiro, e seguindo pouco a carreira do Brandon, não entrei, como tu, com o pé atrás. Vi, como já vi na temporada passada, Jonathan Cake quando trouxe o inglês Cole Barker. Mas, ao contrário do Cole, os argumentistas decidiram-se por uma linha diferente, criando acção romântica dos dois lados da relação Sarah/Chuck. A aposta surtiu efeito durante 1/2 episódios mas, a partir daí, acho que o Shaw se tornou um apêndice…algo não necessário para a série, visto que o drama romântico acabou por dar tudo o que tinha para dar. Mas, não sabendo quando sairá, temos de aguentar com o rapaz…pelo menos a Yvonne rouba-lhe a cena (e não é só em termos de representação). Isto, com o Cole, não aconteceu visto ele ter ficado 2 episódios.

      Quanto ao destino de Shaw, só vejo um: morte. Uma morte agora ou futuramente. O Bryce também morreu e a série conseguiu aguentar bem com o impacto. Shaw é uma personagem muito mais fora do contexto desta, por isso arriscar na morte dele não traria tantas consequências narrativas a série, mas estas haveriam para as personagens. Passo a explicar: a morte do Shaw, devido a sua pouca importância, não causaria dano na série, mas, p.e., a Sarah fragilizava-se e o Chuck arranjava ai uma pequena janela para reentrar a sério. Isto é só uma aposta, mas vejo como a mais fácil e mais produtiva para a série.

      Só mais uma nota: os teus comentários comparados com o meu review são míseros ensaios. E, assim, dá para discutir pontos de vista (algo que consigo em todos os comentários de Chuck, visto não existir ninguém que diga: bom episódio…)

      Cumprz

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  4. Review longo? Nem dei por isso, como está bem escrito é rapidinho de ler, numa palavra: Awesome.

    Quanto a Chuck, gostei imenso, foi um grande episódio, Morgan esteve bem e será uma mais valia para Chuck agora. Interessante ver como se vai sair o ‘novo’ espião.

    Mias uma vez parabéns pelo review ;)

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    • Se gostas-te de ler, respondo-te na mesma moeda: Awesome. É para isso que aqui estamos.

      Esse aspecto que mencionas, do novo espião, acho que é o mais interessante aspecto que aparece da descoberta do segredo por parte do Morgan. A série, com aquela frase, ao dizer que ele já fazia parte da equipa, dá-nos a dica…e tudo o que vai surgir daí vai-nos lembrar a primeira e a segunda temporada, num Chuck Morganiano. E a traulitada já foi o aperitivo…

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  5. É Aguerra só elogios…lol…mas são merecido pois tal como o episódio o review está excelente. Eu adorei o episódio, já não me ria tanto com um episódio de Chuck. Finalmente Morgan sabe da verdade e penso que esta foi uma decisão acertada da série, veremos as trapalhadas que Morgan vai causar a Chuck. Que Chuck continue assim.

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