FlashForward (1.13) – Blowback

Quando 2+2 dá 5, alguma coisa se passa. Ou a conta está mal ou a malta que a fez é demasiado inteligente. Se a conta está mal, chega rectificar. Se a malta é demasiado inteligente, tem de se colocar mais burra, visto que ninguém a percebe. É neste ponto que me encontro com FlashForward. Das duas, uma. Posso ser eu que sou demasiado inteligente e, por isso, não percebo a série. Pode ser a série, que é demasiada inteligente e estar só ao alcance de algumas pessoas (e eu não sou uma delas). Pode ser a série a tentar que 2+2 seja 5 e ainda não deu conta do erro. A única hipótese que não é aceitável é que seja eu que esteja a fazer mal a conta pois, para mim, 2+2 será sempre igual a 4. E esta razão ninguém me tira.

O primeiro problema da série é a forma como foi edificada. Os flashforwards são o futuro em Heroes que, devido a escolhas, podem ser mudados e, assim, nunca serem concretizados. A série entra assim numa situação paradoxal: o que vimos já não o é porque, ao vemos o nosso futuro, tentamos muda-lo. A série já disse que o futuro é mutável, com a morte do agente e, assim, perde a base de apoio. Torna-se, assim, em algo mutável, em pessoas que perseguem o futuro e, sabendo que as decisões tomadas levarão a outro, continuam a muda-lo constantemente, com uma tentativa de fugir a vida futura. Se a série deixa-se a possibilidade de mudar-se o futuro aberta até chegarmos ao dia D, a base, apesar de não existir, tornava-se a conjugação das duas. O suporte da série foi retirado a partir do momento em que morre o agente, colega do Mark. E a partir desse momento a série tentou voltar aos carris. Para mim ainda não conseguiu.
Desta vez vemos a vida de Aaron, a personagem mais coerente da série e, na mesma medida, mutável. Os flashbacks são interessantes porque permitem construir a personagem mas, visto bem, Aaron era das personagens mais “construídas” da série. O seu flash dava a entender o amor pela filha, os flashbacks transmitiram isso. Claro que o espírito guerreiro do rapaz ainda não tinha sido mostrado grandiosamente, mas que ia até ao fim do mundo pela filha já tinha percebido. Depois a forma como entra na bebida ainda não tínhamos provas visuais mas tudo levava a entender que era pela “morte” da filha. Outro flashback desnecessário. Assim, e deixando os flashbacks para trás, ficamos com o presente.

Jericho é a companhia que anda atrás da filha de Aaron. E, como uma boa companhia americana de espionagem, consegue utilizar todas as pessoas envolventes a pessoa que quer pressionar. Assim, e quando se pensa que se está a dar informação a uma pessoa de confiança, troca-se as voltas. É neste mundo que vivem os americanos e, consequentemente, as suas séries. Num mundo de dúvidas, onde as pessoas modificam do dia para a noite. E onde não se pode confiar em ninguém. Por isso é que não percebo como o Aaron, de ânimo leve, vai contar a verdade ao rapazinho que mal conhece. E, assim, tudo se vira contra ele, numa cena a lembrar os homens das máscaras. Com a filha escondida, decide atacar o presidente do Jericho. É outra coisa que não gosto nos americanos: deixam as pessoas importantes da companhia sem protecção, é tudo feito a descarada e, mesmo assim, só vem quem quer. Com este presidente (só pensei “Volta Dexter!”, quando vi a cara do Harry) começam os jogos. A narrativa atingiu interesse quando aparece o “traidor” despido, causando choque a menina do papá. Uma narrativa interessante que, para uma série que se preocupa com o futuro e as causas de vermos este, tornou-se desnecessária. Ainda por cima com a falta da mentalidade do pai que tenta de tudo para salvar a filha.

A outra história não foi a tentativa de concretizar o passado, mas sim fugir deste. É Mark, Lloyd e toda a narrativa do outro flashforward. Qual é o mal de outro flashforward? Desde que se saiba o dia, a hora e o minuto, tudo bem, vemos o futuro, salvamos vidas. A preocupação é mesma esta: salvar vidas, que seriam perdidas com o novo flash. Este novo dado introduzido, o de se saber o flashforward quase completo de Mark (ainda acredito que têm algo na cartola que tirarão de lá, quando tiverem sem assunto) trouxe nova narrativa para os dois mas todo aquele “vai, não vai” do Lloyd e toda a descontracção do Mark são de homens que gostam de si e que parece que ajudaram durante toda a vida e, agora, estão numa encruzilhada. Não, o que acontece é que estão numa encruzilhada agora e não são os melhores amigos. Apesar de, às vezes, o melhor amigo andar a dormir com a mulher. Mas isto não é o que acontece. Esta divisão das narrativas para depois confluir (esta e a seguinte que tratarei), estando os dois dentro do FBI, tornam-se cansativas, dificultam a progressão. Engonham muito, digamos a verdade. Juntem tudo e continuemos com a história.

Do outro lado temos uma narrativa desnecessária, do mais desnecessário que a série pode dar. Eu não me importo que andem a distribuir amor, mas a forma como a namorada Demitri chega a papelada é estúpida. Então agora é ameaçar que venho a público e tenho informações sobre o maior acontecimento, se não da humanidade, dos últimos anos? Depois ser ela a defender a Alda é feita de forma tão irracional que mete pena. Então vai-se meter na boca do lobo para que? Sair com um dente? Não me parece que o lobo o dê facilmente. Para acabar, o desaparecimento da arma. Alguém não estava a espera? Olhem, eu estava. O terreno estava feito para isso. E assim FF caiu mais um pouco na minha consideração.

Última narrativa: a gravidez de Janis. E sim, acredito que vai ficar grávida. É nos momentos mais difíceis que ocorrem os milagres. E a maior parte das séries envereda por esse caminho.

A série, para quem está no primeiro ano e a passar por dificuldades precisa de dar mais. Está a construir narrativas desnecessárias. Pois, ao contrário do que a malta da série pensa, não acredito que não existirá outro flashforward.

Um comentário

  1. Já conversámos sobre esta nota, e já sabes que acho mt baixa.
    O episódio foi altamente, e o fim também.
    Nota: 8,9

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