A mente humana é um emaranhado de cordões, que passam por cima uns de outros. Tal como os fios vão se entrelaçando, parecendo ter vida, a mente humana entrelaça-se em associações, em situações, em locais. E, dentro desses laços entrelaçados vão surgindo as ideias, as emoções. Até para a esperança a mente humana arranja espaço. Pode ser pouco, mas é dado de boa vontade. E se o temos, há que aproveitar. House tem um episódio muito introspectivo, aproveitando o momento “pré-season finale” para construir-nos uma história onde as pontas dos cordões se tocam, abrindo o sapato bem atado para o mundo. Pois, se os cordões se emaranham, também voltam ao sítio. É só encontrar por onde se deve puxar. E ter um pouco de esperança…
Duas cadeiras vazias, ou cheias de ar, como queiram, sentadas no estrado. A abertura é sombria, apesar de estar um tempo “generoso” lá fora. Pelo menos não chove, o que já é bom por estes dias. House regressa ao consultório do seu terapeuta, para ser ouvido e pouco ouvir. Entramos na mente de House pela porta da frente, encontrando uma confusão. Toda a mente é assim, confusa. Temos de encontrar o cerne para encontrar o resto. Comecemos pelo caso.
O caso, apesar de não ser nada de especial, tem duas coisas positivas. Situa-se na parte “brilhante” da moeda que falei na última review e consegue ter uma explicação lógica. Situa-se na parte brilhante pois relacion
a-se com House, com o seu estado. Claro que, devido a confusão que se encontra a mente de House, e sendo o caso dado a ver por esta mente, tornando-se ela o narrador, e não alguém imaginário, por isso a perspectiva é algo pessoal. Assim, e adicionando as falas do terapeuta, a série consegue abordar o caso de uma forma totalmente diferente, de uma forma pessoal, algo que ainda não tínhamos visto.
Contrariamente a escuridão existente no consultório, o caso começa com luz. Começa nas urgências, algo que coloca a questão do “porquê aí?”. A resposta é longa, mas a essa já lá iremos. Continuemos com a abertura grande, para recebermos a luz suficiente para percebermos esta confusão de cordões. Casos sobre amnésicos já passaram por House. Só que, se a memória não me engana, todos eles traziam a “carraça” atrás. Desta vez House tem de partir a procura, descobrir a verdadeira identidade da paciente. Pois, ao contrário do que ele dizia, o passado do paciente permite conhecer quem ele está a tratar, não só medicamente, mas também pessoalmente. E House começa cada vez mais a preocupar-se com essa faceta, algo visto com a sua procura exaustiva da casa da paciente. Tenta dar algo palpável ao passado, e não só uma cara.
Ao encontrar o marido, o caso muda racialmente. Muda porque passou a ser uma pessoa, e não uma paciente, a rapariga amnésica. Dá-se o efeito de House começar a encontrar pontos de encontro entre a sua situação e o paciente. Isto deve-se muito ao já falado narrador, que se tornou o próprio House, que assim dá uma abordagem totalmente diferente e permite criar estas
ligações. Assim, as pistas começam a sair dos cordões que circulam e o terapeuta, como alguém que é bom no que faz, começa a desfazer os nós existentes. Os problemas que encontra relacionam-se bastante com a situação de House: tal como o marido encontra alguém que conhece mas que parece afastá-lo a cada momento, House sente isso com Wilson. Uma relação quebra outra, e se no primeiro caso a não existência da relação quebra a mesma, no segundo a relação entre Wilson e Sam quebra a de House e Wilson.
Assim surge um House totalmente em baixo, apesar de não o tentar demonstrar. Sente-se traído, sente que o mundo virou-se contra ele. Vê, no marido, a única pessoa que o compreende. Apesar disso, a sorte parece bater-lhe a porta. Isto porque aparece Alvarez, o famoso Alvie, que foi o ponto de abrigo quando House está na clínica. House tenta arranjar o substituto de Wilson, relacionar-se, tal como fez no último episódio. Assim, Alvie aparece no melhor momento. E, apesar das mudanças que fez na casa de House, este parece não se importar. O que interessa é que encontra este ponto de abrigo, o amigo.
Assim, e com estas três narrativas, o episódio se constrói. Vão se retirando mais uns nós, um aqui, outro ali. Continuemos então pelo nó do caso.
O caso vai ficando cada vez mais técnico, largando por alguns momentos a componente comparativa. Mostras disso é a imagem onde a paciente tem um ataque (fantástica montagem, que esteve brilhante neste episódio…) e House parece largar a fala com o terapeuta. Continua como o contador da história, a contar a história pura e dura. É, por esta altura, que o ambiente no consultório torna-se pesado. Até começa a chover cá fora, um sinal que o dilúvio aproximava-se.
Assim o caso torna-se pouco essencial para a história. De referir, antes de mais, que as tentativas falhadas de House em termos de diagnósticos passaram perfeitamente, não se notando, ocorrendo o mesmo com a resolução final, que não pareceu uma luz. Foi o acaso a funcionar, que assim deu mais que uns meses de vida a quem só meses de vida tinha.
Quanto as restantes narrativas, vamos começar com Wilson. O pedido de retorno a casa deste é formulado, mas não aceite por House. Tudo isto porque pensa que foi Cuddy que pediu a Wilson e, tal como se viu no último episódio, House de Cuddy só quer amor e m
ais nada. Amizade nickles, compaixão nunca. Só interessa uma coisa…E tudo isto aparece na cena no consultório, numa das melhores cenas do episódio, pois é, de novo, House a conduzi-la. E quando House conduz as narrativas, estas parecem ganhar outro brilho. Mesmo quando escurecem.
Escuro ficou o final. House começa por tentar ajudar Alvie, de tentar tornar-se amigo deste. O que, no início, parecia uma jogada de um House passado, torna-se uma jogada sublime para dar a liberdade ao seu companheiro. House, após perder Wilson, tenta arranjar outro ponto de apoio verdadeiro. Mas, ao tentar ajudar, e ao dar a liberdade, perde o amigo. Que sai da sua vida, parte. E tudo fica sombrio…
Tudo fica sombrio, acabando tudo por sair mal para House e bem para os outros. E, ao contrário do início, em que tinha o marido como “ajudante” na caminhada para o inferno terrestre, este deixa-o. Parte outra vez para a conquista da mulher, relacionando-se. Cuddy também encontra o porto de abrigo de Lucas, Wilson em Sam, Alvie no primo. House fica sozinho. Tudo acaba por sair errado. Não é diferente do que se passava antes, só que antes ele não se importava. Agora importa-se, fica ressentido. A mudança que teve não lhe trouxe nada de bo
m. É isso que agora enfrenta: voltar a mudar o paradigma da vida. E, para que tudo isto fique bem, tem a bebida para ajudar.
Num episódio muito bem construído, House consegue prender do primeiro ao último momento. A narrativa é muito boa, Hugh Laurie está brilhante, como sempre, e a abordagem não fica atrás. É a preparação para a season finale, já no próximo episódio. Uma preparação eficaz e emaranhada, mas com uma explicação fantástica. Uma introspecção sobre a mente de House, a entrada numa mente confusa que se torna simples. Pois House quer todos o que nos queremos. Ser felizes. Ao lado de Cuddy, e não do livro do seu tetravó.

Bem..parece que andam a ler as nossas conversas, pois assim do anda deram.nos um grande episódio.
Narrativa muito boa e visualmente perfeito!
Cumpz
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Pois parecem que andam a ler. Ou nos estamos videntes de categoria.
De resto, concordo contigo, como a review deu conta.
Cumprz
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Desta vez não gostei da review…
Adorei! Tive até pena de ler as últimas linhas, porque realmente foi fluente, simples e cheia de bonitas metáforas, as always.
E por acaso a tua escolha das imagens não fica nada atrás do episódio… Muito boas
Parabéns … (ah e não encontrei nenhum erro :p)
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Muito obrigado pelo elogio. Temos de arranjar um acrónimo para os agradecimentos
. Fico contente que tenhas gostado
(e nem comentário sobre o episódio tens, por isso passo esta parte)
E agradeço tentares encontrar erros. Ainda bem que não tinha.
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