House (6.22) – Help Me

É nos momentos mais difíceis que se vêem os grandes homens, aqueles que são capazes, por artes de heroísmo, carregar o peso das largas vigas lançadas para a terra. Esses homens aumentam dois palmos enquanto os outros decrescem a meras polegadas, numa ironia completa. Pois, tal como nos piores momentos é que se vêem os grandes amigos, é nos momentos mais difíceis que acontece revoluções, um milagre humano. Ao ver o vento a trazer, no silêncio, uma voz que pede socorro, a resposta não é sim nem não. É uma resposta também de socorro, pois o socorro não passou a ser de uma, passou a ser de duas. E juntos, a voz faz-se ouvir até no silêncio lunar.

House, como qualquer série digna de nome, sabe que as Season Finales são para ser grandiosas. Pois tudo o que passou é esquecido quando o final se aproxima, só o mais recente é recordado quando necessário. Neste caso não é necessário: o episódio é de novo um caso que demonstra o crescimento do médico, da evolução para alguém com sentimentos. Uma mistura de caso com calamidade, a série parece leva-nos para a Season Finale da quarta temporada, onde o cenário de calamidade explode a nossa frente, como uma pequena bomba. Começamos, de novo, com um cenário catastrófico, mas já esperado.

Uma mão fechada, sozinha no mundo, cobrindo algo. Uma cara sangrenta. Um buraco na parede. E House sentado. É o primeiro sinal que a série nos dá, fazendo-nos voltar 8 horas antes, num salto muito utilizado (e, por isso, cada vez menos inconsequente, havendo casos em que se demonstra um extremo erro (não neste caso, onde a narrativa é muito bem controlada e este cenário põe logo a atenção focada)), para vermos tudo o que aconteceu para acabar tudo naquele momento.

Voltamos, primeiro, a entrega do livro. Primeiro: a série soube controlar muito bem a câmara neste episódio, desde o início, visível na abertura e, depois, na forma como House “desce” o buraco, com uma câmara sempre apontada ao (grande) Hugh Laurie. Mas não é isso que a série nos quer dar. Quer-nos dar a entrega do livro, a aceitação do destino de Cuddy ao lado de Lucas. House aceita assim a condição de ficar sozinho para o resto da vida, sem contacto. Mas tudo muda com um desastre, com Cuddy a preparar-se para ir e House a acompanhar.

Assim, dentro da destruição, tudo parece relativamente despreocupante. A morte escapa pelos tubos contorcidos. E dentro destes ouve-se toques. A mensagem por que House esperava: a luta por alguém, alguém sem forças. E entra, num espaço reduzido, a viajar para o desconhecido (continuo a dizer que a cena da descida é fantástica…). De novo o vento desaparece, mas aparece uma pequena luz, deitada sobre um monte de betão, presa por uma perna a um destino que parece puxa-la para dentro da rocha: a morte. Chega House e ela agarra-se a bengala com todas as forças. Não quer morrer. O grito de socorro passou a ser de dois.

A série começa-nos a dar os contornos do caso, com um lado simbólico e outro real. House debaixo da terra a tentar salvar uma paciente demonstra como o médico mudou: arrisca a sua vida para estar em contacto com alguém que não sofre de doença misteriosa nenhuma, demonstrando um apego aos seres humanos que a série realçou bastante nesta temporada (desde o Broken, passando pelo Lockdown, até este). Assim, com terra por cima, a luta pela sobrevivência continua.

A série vai-nos dando excelentes momentos, com as falas entre os dois soterrados a serem de uma subtileza enorme. A vida de House é passada a correr, com a comparação entre os dois a existir: de um lado House sem perna, do outro Hanna com ela presa. A similaridade é grandiosa, podendo assim jogar-se com a vida de Hanna a belo prazer: House tentará corrigir os erros do passado.

Assim começa a ligação, que futuramente seria amizade, entre os dois. Quando chega o primeiro momento de salvação é House que ajuda o bombeiro, numa luta entre as vigas e o ser humano. Tudo se perde pela força da gravidade, de novo irónica: coloca as personagens numa situação ainda mais grave que a anterior. Aí House vê-se num paradigma: ou tenta dar a importância a uma mísera perna e pode perder a “amiga” ou deixa a perna e consegue que exista vida depois da tíbia. Tem de decidir entre um “House simpático” e uma Hanna. De novo a série demonstra-nos que House está diferente: decide pensar nos outros e segue Cuddy para o abismo.

Quando sai do abismo, Hanna está Hanna e não House. O marido a seu lado, a deixar de preocupar-se com as pernas pois existe vida para além do buraco (o diálogo entre House e Hanna debaixo do betão, quando este a convence a amputar a perna, é fantástico). House deixa a bengala de fora disso tudo: relacionou-se, conseguiu não estar sozinho. Mas a bengala deixada não significava isso: a bengala significava um novo momento, uma viragem. Tudo começa ao som das sirenes.

Se a ligação começa ao som dos tubos, tinha de acabar com algum som. Assim, e dentro da ambulância, Hanna falece, marido a seu lado a chorar por esta, House a seu lado a chorar também. Ambos choram, mas por causas diferentes: o marido pela morte, House pela perda da relação. Assim, e sobre o som das sirenes, parece que House concluiu aquilo que tinha concluído: a mudança que teve só lhe trouxe sofrimento, enquanto os outros vivem felizes na sua vida. Assim mais vale voltar a antiga vida…

E assim voltamos 8 horas a frente, para o momento desesperante. House com o espelho partido e com Vicodin na mão. O regresso é inevitável. Até que aparece a mão de Cuddy. A salvar do abismo. Existe vida para além da morte? Parece existir. A relação é começada, numa cena nada ilusória. A mudança serviu para alguma coisa. Agora de mão dada, House termina num beijo. E tudo termina.

A relação entre Huddy sempre foi o ponto de ligação entre a série e o espectador. Um ponto em que toda a gente desejava a reconciliação entre os médicos. Assim a série abre um novo capítulo, o de relacionamento, após o longo cortejar. Desejos? Ficam guardados para a review de temporada.

Vigas quebradas:

  • O caso suplementar, que, a meu modo de ver, só teve uma utilidade: dar ao Foreman, ao Chase e ao Taub algo que fazer neste episódio final. Uma perda de tempo absoluta.
  • A entrega do livro por parte de House a Cuddy é, no meu ponto de vista, o começo da quebra com Lucas. Foi o momento em que Cuddy percebe que House quer, no final de tudo, um contacto. E o livro significa isso.
  • Goodbye Thirteen. Com a actriz a ter filmes a realizar, a série liberta-se da personagem. Parece que vai com problemas. Talvez a doença de Huddingtons seja a causa? É a mais plausível.
  • Mataram um paciente!!!
  • Para acabar, duas notas: a cena da correria de Foreman a encontrar aquele estado desolador é lindo. De novo demonstra como a filmagem este irrepreensível, principalmente num espaço tão reduzido (já li que foi filmado numa câmara diferente). A segunda é que espera-se o regresso da Cameron. Esperemos sentados até Setembro.

Pronto. Tudo acaba com o pedido de socorro socorrido. House passou a ser um homem grande com uma grande mulher ao lado. House cresceu dois palmos (os saltos da Cuddy são elevados). Help Me é um bom episódio. Sobre a salvação, sobre a redenção. Um fechar do ciclo e o começar de outro. Vamos ver o que este nos traz.

SEASON FINALE

5 comentários

  1. Sérgio /

    Pronto.. eu odeio quando só trabalham para os season finale’s.. é uma falta de respeito para quem acompanha a temporada toda.
    De vez enquando, durante a temporada, podiam envolver histórias assim deste tipo, ou matar e mandar embora personagens como 13 e Lucas.

    Episódio brutal, não bateu o Broken ( para mim o melhor da série), mas tambem não lhe ficou muito atras..
    É esperar para ver, se na sua 7º temporada House vai conseguir elaborar linhas secundárias com mais interesse e dramatismo.

    Cumpz

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    • Estou contigo, mas é aquilo que falávamos no outro dia: a série já é uma constante na semana e estes episódios são bem-vindos. O outro são, literalmente, um passa tempo. Mas podiam arranjar algo mais original que acompanha-se durante a temporada, e não fogachos soltos.

      Quanto à 13, espero que vá para o regresso de Cameron. Façam-me esse favor…em relação ao episódio, apesar de não achar o Broken o melhor da série (House’s Head está um furos a cima), também não achei este tão brilhante como o primeiro desta temporada. As personagens são desenvolvidas, mas ter um caso estraga parte do episódio…

      E veremos o que sai da 7ª temporada.

      Cumprz

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      • Sérgio /

        Esquece.. enganei-me confundi o Broken com o House’s Head..
        O House’s Head é que é o penúltimo episódio da 4º season, foi mesmo perfeito e acho que dos sites que visito nenhum deu nota 10.. Na altura achei-o entre os dois melhores episódios, de todas as séries, exibidos naquela temporada.

        Cumpz

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  2. João Paulo /

    Concordo com o Sérgio, é frustrante ver excelentes episódios no final e ter, uma vez ou outra, um bom episódio..

    No entanto, gostei, claro e a review, brilhante, também :)

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    • E eu concordo com vocês. Os fogachos de House são poucos para a série ser brilhante. Mas pronto, é isto que temos, e enquanto vamos tendo episódios destes vai havendo vontade para acompanhar os 18/19 restantes.

      Quanto ao resto, muito obrigado pelo elogio. E que venha mais episódios destes na 7ª temporada.

      Cumprz

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