Sacrifices
A cada passo que damos um pouco do nosso corpo desfalece. Os músculos morrem porque querem viver, nos caminhamos para a morte porque ainda vivemos. E, a cada passo que damos, fazemos um sacrifício. O sacrifício de nos aproximarmos do fim, de mais um pequeno desfalecimento. Pois todos nós somos feitos de pequenos desfalecimentos que se vão acumulando até que o não, partícula com uma carga desmerecida, visto que, entre desfalecer e falecer vai um não e uma bater de coração, desaparece e dá lugar a morte. Mas, se em cada passo nos sacrificamos, maiores sacrifícios são necessários. Todos nós, conjuntos de sacrifícios, sacrificamos tudo para sermos livres destes. É de novo um paradigma humano…mas desses mesmo estamos cheios. Pois, em cada passo dado, um paradigma nasce e morre. Ao som de um sacrifício.
Kings tem, neste 4 episódio, uma calmaria. É irónico que, no episódio mais dançado, mais mexido, eu ache que a série acalma. É um ritmo mais acelerado, mas menos trabalhado. Os ingredientes estão lá, mas este é, claramente, um episódio para preparar terreno. Claro que, de novo, isto é irónico. Porque uma série como Kings está sempre a preparar terreno. A série constrói a história e não histórias. Vai-se construindo, e a cada passo vai-se abrindo. Mas é, claramente, o episódio mais supérfluo até agora.
Comecemos a ver do lado monárquico. A série abre logo com uma reportagem sobre um espectáculo de ballet, a decorrer por ordem da rainha. A abordagem que a série faz a este tema é, primeiramente, muito bem pensada. Ao contrário do habitual, onde vemos quase sempre gente com pouco poderio a tentar ser gigantes, desta vez temos oportunidade de espreitar do outro lado do espelho. Vemos os gigantes a calçarem os saltos para serem bem vistos entre gigantes faz de conta. Esta abordagem da realeza é muito bem conseguida pois, para além das personagens, principais responsáveis da abordagem resultar, temos trabalhos de bastidores que é sempre bom apreciar.
Mas, antes de apreciar entramos logo nos jogos do poder e da conquista pois estes existem em todo o lado. A par de umas fotografias para ilustrar revistas pois são meros desenhos da vida real, vemos o nosso herói, pequeno como uma formiga, a tentar ser pisado por saltos que batem nos azulejos do palácio. Mas, tal como as formigas, David consegue ser herói. Carrega mais que o peso lhe permite, por ser pequeno consegue ser ainda maior. Isso é vis
ível na forma como aborda os jornalistas, num acto de espontaneidade que parece programada. Mas, como qualquer palácio, formigas não são permitidas.
A forma como David é retirado do espectáculo representa, antes de mais nada, três aspectos. O primeiro é que a rainha, para além de o ver como um potencial perigo, tenta proteger o filho, o segundo é que Michelle, apesar da ameaça do pai, tenta aqui um namoro às escondidas, mesmo à monárquica. O terceiro é que Silas ainda não decidiu como há-de tratar de David, deixando-se levar pelos caprichos da mulher. Numa pequena decisão surgem três narrativas. Juntando a de David, que após o “desconvite” fica livre para uma noite à grande e à francesa com o príncipe, a série abre logo o jogo.
A primeira, que é a do bailado da rainha, não tem grandes implicâncias. É, mais que nada, uma forma de consolidar as outras. De as outras surgiram espontaneamente e não uma forma forçada. Pois, para além do discurso que dá à sua filha (brilhantes diálogos, brilhante banda sonora, brilhante “mensagens subliminares” ), dando uma noção muito real do que é a realeza, ou seja, nada mais que divindades (já Jack o diz…), só a mensagem de um quadro torto é retirado. Mas é nesse quadro que está presente toda
a estrutura da série. Sammuels entorta o quadro, numa noção clara que, para além do rei estar bastante errado, será ele um dos que ajudará.
Mas o primeiro sintoma dos erros do rei é o adoecimento do seu filho. Deus trabalha de forma diferente e manda sempre sinais confusos. Este, apesar de tudo, é claro: está zangado com a governação do rei que se acha omnipotente. E nada melhor que ameaçar o maior amor do rei, juntando assim problemas para a realeza. Claro que não basta um pedido de desculpas. Deus pede um pouco mais, pede sofrimento, pede um sacrifício para livrar de outro. Ian McShane lá lhe acaba por fazer a vontade, mas deixa a pergunta: que Deus é este que quer que se mate uma coisa tão bonita? Ele pode estar chateado, mas não haverá outros caminhos para ultrapassar? Pergunta deixada no ar, feita por um rei perdido nos labirintos da vida. Mas, e se o rei já se mostrou bastante implacável, tem adversário à altura. Pois Ele comanda os destinos da vida…
E, vivendo no limite, temos uma história também bastante simples mas que abre bastantes portas. David lá sai com Jack e seus capangas e, daqui, surgem dois problemas. Após uma noite embebedada em álcool, e com David a necessitar de uma distracção para o coração, surge o jogo de tabuleiro que, na realeza, é muito bem trabalhado. Trabalhando em par, Jack e a sua mãe arranjam forma de David e a sua amada afastarem-se mais. É nestes jogos que David ainda não aprendeu as regras. A formiga ainda tem de crescer muito. Mas, enquanto David dança, temos Jack a esconder os seus segredos. A vida homossexual do filho do
rei já tinha surgido, mas temos a confirmação. E surge outra porta aberta…
A última porta aberta surge do novo “beijo” de David e de Michelle a descobrir o mesmo. Após uma noite passada a ver meias do rei, algumas com buracos, demonstrando que todos temos as nossas falhas, Michelle recebe o murro no estômago. Será que o novo plano de saúde curará as feridas deixadas por este murro, ou será um beijo do príncipe encantado de David. Para ver num dos dias seguintes…
Este episódio foi, essencialmente, para fazer o ponto de situação e abrir mais umas narrativas. A série poderia fazer isso num episódio mais mexido, mas esta paragem é benéfica. Permite as personagens crescerem mais uns palmos e, claro, irem aparecendo cada vez mais completas. E, se o episódio falou de sacrifícios, foi o sacrifício necessário para, posteriormente, se ir colher melhores frutos. É preciso, para isso, podar a árvore para ela poder continuar a crescer.

Mais uma vez as analogias que cocegues fazer entre um episódio e a realidade são fabulosas tornando as tuas reviews muito agradáveis de se ler.
Sacrifícios é a grande chave deste episódio, um sacrifício que Silas precisa de fazer por um bem maior, o seu reino. E é aí que ele é rei e senhor, novamente a sua interpretação (Ian McShane) foi sublime e sempre uma constante ao longo da série, não tenho grandes duvidas que se tivesse (a série) o sucesso que merecia teríamos este senhor a vencer um emmy, a banda sonora tal como o episódio tranquilo que tivemos esteve ao seu ritmo mas é uma das maiores preciosidades desta série, um regalo aos nossos ouvidos.
Novamente fica a minha sugestão para quem quiser ver algo realmente bem feito em todos os aspectos, KINGS.
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Muito obrigado pelo elogio. E, claro, assino por baixo na sugestão
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É pena é que (aparentemente) não temos tido muito sucesso :S
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Eles é que perdem…
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