Lost – As Personagens

Antes de LOST, eu era uma pessoa completamente diferente. Comecei a ver LOST quando tinha 14/15 anos, eu e mais uns amigos descobrimos a primeira temporada a dar na altura na RTP1 e a partir desse momento LOST passou a fazer parte das nossas conversas. No momento em que comecei a acompanhar a série pela América nunca mais consegui deixar de ver a série, também muitas outras séries entraram no meu panorama. Mas LOST foi o ponto de partida. É por isso que digo que LOST, até agora, é a série da minha vida, e neste momento já tenho uma grande lista de séries assistidas. Longe vão as horas de almoço em que ia para casa de um colega meu ver os episódios. Ficávamos sempre, sempre, maravilhados com o que víamos, íamos para as aulas, depois, mais leves, mais completos, com vontade de ver mais e mais. Numa conversa com colegas numa aula aqui à coisa de três anos, referimos que havíamos de estar na universidade ainda a ver LOST. O prognóstico confirmou-se. A vida mudou muito de todos nós, eu próprio tornei-me uma pessoa completamente diferente. Crescemos, evoluímos e mudamos, mas a vontade de ver LOST, as sensações daqueles 45 minutos semanais mantiveram-se. É por isso que digo que LOST é a minha série, a série que moldou aquilo que sou hoje em termos de gostos e crítica.

Portanto, talvez, seja bastante parcial quando falo de LOST, mas creio que o meu espírito crítico me permite avaliar justamente a série. Já vi grandes séries, Sopranos, Six Feet Under, Twin Peaks, etc. Cada uma delas é magia. LOST talvez não tenha o diálogo aprimorado de Sopranos nem a beleza artística de Six Feet Under. Mas LOST é para mim uma série muito completa. Mistério, drama, acção aqui e ali, argumento fantasticamente artilhado…Mas a característica, para mim, mais importante da série são as suas personagens, as relações que se estabelecem e as mudanças a que cada um é submetido. É por isso que hoje venho aqui falar-vos das personagens de LOST.

Com uma primeira temporada extremamente aclamada por público e crítica LOST desenvolveu desde sempre os seus mistérios, a sua trama única. No entanto a primeira temporada foi aclamada pelas suas personagens e pela beleza com que nos eram apresentadas através dos flashbacks. Mas ao longo de todas as temporadas as personagens foram desenvolvendo fortemente a sua personalidade, novas foram aparecendo. E tudo que acontece tem em mim muito impacto precisamente porque as personagens entranharam-se profundamente, sinto juntamente com elas.

No inicio apareceram logo Jack, Locke, Kate, Sawyer, Hurley, Sayd, Sun e Jin, Claire e Charlie e muitos outros, que chegaram e foram-se. A empatia ia-se acumulando e muitas eram as personagens que acabavam por desaparecer. A série começou com Jack Shepard, o cirurgião, que se assumiu como líder desde do episódio piloto, mas Jack não é simplesmente o líder destemido, a personagem cliché. Jack é um homem à procura da sua própria identidade, de um novo rumo, sempre se guiou por aquilo que o pai tinha obtido e isso não o fez ser melhor, o ter caído na ilha mais do que uma catástrofe foi uma oportunidade para ele poder assumir-se como um Jack renovado disposto a muito mais do que ele próprio suponha. O oposto de Jack foi sempre Locke, duro e sem dúvidas de que estar na ilha é muito mais que um acaso. Enquanto Jack é um homem da ciência enquanto que Locke se revela um homem de fé, mas também ele é tudo mesmo plana, durante anos lidou com a invalidez, a discriminação e a perda de sentido, traumatizado e magoado, a ilha restabeleceu aquilo que ele tinha perdido, obviamente que a partir daqui Locke seguiu sempre os seus próprios ideais. Pode ter cometido muitos erros, mas alguém o pode censurar sabendo o que passou? Acreditar na ilha, acreditar que estava destinado a algo mais era a única saída para um homem que tinha perdido tudo.

Kate é outra das personagens que nos é revelada logo no inicio, condenada a prisão antes de lá ir parar para noutra prisão, a ilha, a partir daqui ela própria procurou o seu próprio espaço num meio que sentia que não encaixava perfeitamente com ela no inicio, mas Kate foi crescendo, ganhando protagonismo, não propriamente pela sua importância estratégica para a sobrevivência dos passageiros do voo 815 mas porque se assumiu como a mulher por trás dos líderes. Diz-se que por cada grande homem existe por trás uma grande mulher. Kate é essa mulher quer para Jack quer para Sawyer. É o seu ponto de abrigo, aquela que está lá quando tudo o resto falha. Mas Kate está dividida entre dois. O que a mim me provocou irritação, nervos, mas não nego que este triângulo seguiu exactamente como devia ter sido. Claro está que Sawyer, o menino bonito também teria de ser bem mais que isto, um passado obscuro, durante anos procurou em vão e com erros pelo meio encontrar o homem que destruiu a sua família, tanto procurou que acabou por se converter ele próprio no homem que procurava. A ilha para além de ter conseguido que Sawyer resolvesse de vez o problema com o passado. A cena em que Sawyer encontra o pai de Locke é a melhor cena de Sawyer no meio de tanta coisa com qualidade que ele nos conseguiu trazer, Josh Holloway trouxe sentimentos a Sawyer nessa cena que muitos deveriam não acreditar possível, o sofrimento, a dúvida, o remorso, eram palpáveis. Mais do que isto Sawyer conseguiu sentir que possuía as características necessárias para ser ele próprio um líder, na quinta temporada vemos esse Sawyer capaz de assumir responsabilidades e responder pelos outros.

Se reparem as quatro personagens que referi acima têm muito em comum, ambos tentam deixar para trás personagens que exerceram sobre eles uma grande influência, tentam não se tornar naquilo que tanto mal lhes fez, a figura paterna tem para estas 4 uma importância que não é directamente implícita.

Mas mais do que estes 4 protagonistas a série apresenta um leque tão grande de personagens que será impossível referir todas. Mas Charlie tem de se falar, a personagem dele é simplesmente qualquer coisa de espectacularmente bem conseguido, o problema com as drogas, a cura, o amor que Charlie dedicou a Claire e ao seu bebé, a sua amizade com Hurley, Tudo foi construído de forma tão perfeita e tudo culminou com o seu desaparecimento pelo bem da causa maior. Provavelmente a cena da morte de Charlie será uma das mais importantes cenas feitas na TV na primeira década do Sec.XXI.

O surgimento de personagens ao longo de todas as temporadas é uma das maiores conquistas de LOST. Um grande problema da maioria das séries é que quando são renovadas não conseguem trazer novas personagens que complementem bem o que de bom já existia. LOST consegue. Apesar de alguns erros de castings, ao longo das temporadas foram aparecendo Desmond, Ben, Julliet, Ana Lucia, etc.

Desmond é das minhas personagens preferidas. Sou um romântico por natureza e o aparecimento desta personagem, que no inicio aparentava estar perfeitamente no meio dele e capaz de nos dar respostas. A verdade é que não deu, mas trouxe profundidade e romance a LOST. A dedicação a Penny, a química entre os dois, todos os anos afastados, mas sem conseguir esquecer o amor. Tudo a culminar numa das cenas mais bonitas para mim, a conversa telefónica entre os dois no The Constant foi magnífica. Num episódio tão bom, um final daqueles é qualquer coisa de chorar por mais.

O texto vai longo, falta falar de tanta gente, mas não vou poder. Para terminar falar de Ben. Michael Emerson apresenta o melhor vilão da história do TV. Depois da quinta temporada ainda considero isto mais uma certeza. Ben é uma personagem fantástica, um vilão, como todos deveriam ser, maquiavélico, brutal, capaz de tudo. Mas no entanto não é vazio o que faz, faz pela causa em que acredita, e são estas as pessoas mais assustadoras. Por pura fé naquilo que a ilha lhe dava manipulou tudo e todos durante tanto tempo, aparentava saber muito, mas no fundo estava tão inseguro como os outros, apenas a fé e a força que possuía é que fazia com que ele se sobrepusesse, durante anos pensamos que Ben era um vilão que sabia quase tudo, que tudo o que fazia tinha já um plano traçado de longa data. Ben enganou todos, tudo que fez foi na pura esperança de ser recompensado, matou, errou, sofreu. Na quinta temporada vemos já um Bem submetido aos sucessivos falhanços que teve. A inevitabilidade da queda deste vilão era óbvia, mas a maneira como Bem se revelou profundo psicologicamente é inédito e tem de ser reconhecido por todos.

Tenho pena de deixar o texto por aqui. O que disse não fez jus ao elenco desta série, isto porque LOST tem um elenco tão vasto, variado e de qualidade que se torna impossível referir tudo aquilo que se quer, tudo aquilo que se deve e que a serie merece ver reconhecida. Não sendo um texto que faça jus ao tanto mais que podia ser dito, deixo aqui a minha homenagem à série que mais me marcou e continua a marcar.

11 comentários

  1. ésempre mt bom quando gostamos muito de uma série n é? pessoalmente tb sou uma grande fã de Lost apesar de não ser a minha favorita . Mas é uma das séries mais completas que já vi e mais bem escritas e com personagens bastante complexas o que eu adoro… aliás são as personagens e o elenco que fazem uma série na minha opinião. E quem gosta de six feet under e Sopranos só pode ter bom gosto eh eh

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  2. Lost é uma série que vive muito das personagens que tem. Aliás, tal como os produtores, estou mais ansioso para saber como estas personagens vão acabar do que os outros mistérios propriamente ditos.

    BTW, boa coluna tiago :D

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    • Tiago Duarte /

      Exactamente. Muitas das coisas vistas foram metáforas de outras coisas, muitos mistérios têm encanto exactamente por ficarem mistério. óbvio que há coisas que qualquer fã quer descobrir, mas é preciso entender que a mitologia de LOST tem forte carga metafórica. As personagens, o seu destino, o que lhes acontecerá, isso sim é daquelas coisas que tenho pensado muito nestes dias

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  3. leroy brown /

    Excelente Post! parabéns. Não sabia que eras tão novo(a)! Lost será daquelas séries que marca gerações e os que não a entendem, criticam, infelizmente, porque é uma série original e extremamente inteligente, daí entender muito do que dizes. Eu venho do tempo dos anos 70 em que Dallas e Falcon Crest eram as séries em voga, igualmente depois com galactica. Muito mudou, só tinhamos 2 canais!!! incrivel não era? Voltando a Lost, embora aceite a importância das personagens, a ILHA é o núcleo da questão, o resto…é o resto.

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    • Tiago Duarte /

      Eu sou do tempo em que dava Xena e Hercules a meio da tarde na SIC, via na minha avó. Já sei o que é nostalgia, mas não posso de maneira nenhuma entender o que é acompanhar séries desde da década de 70, nem a sensação de se chegar a esta era da globalização em que podemos ver tudo. Dantes as coisas deviam ser muito mais facilmente marcáveis em nós. LOST creio que será o poço da minha nostalgia, quando daqui a muitos anos falar do que via :D

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  4. Lost consegue provocar este sentimento mesmo! De pertercermos aquele universo, de acompanharmos aquela realidade e tentarmos junto com cada personagem, acharmos a solução para tudo!
    Lost é dedicação extrema e uma das grandes criações da decada!
    Daria enfase tb ao Daniel Faraday e tb a personagens como ELoise e Widmore, alias todos uma famila: filho, mae e pai.

    Parabéns pela coluna e é notavel o quanto cresceu junto com a série, pois digo o mesmo, era uma pouco mais velha que vc, mas senti a mesma coisa que descreveu logo no inicio do texto.

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    • Tiago Duarte /

      Ai passou-me ao lado Faraday, tinha pensado falar nele,e no que trouxe na última temporada a LOST,no inicio da semana quando começamos a planear estas colunas, mas não apontei e varreu-se da memória. Falha imperdoável a minha :( Peço desculpa

      Obrigado pelo elogio Mary…Este primeiro paragrafo é provavelmente a parte mais pessoal que escrevi para o portal xD

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  5. Agora sou eu que digo: sinto-me lisonjeado por ter revisto esta coluna. Lost tem excelentes personagens, é uma a série onde a construção da personalidade destas foi mais bem feita devido aos flashbacks que nos permitem ter algo palpável para perceber as acções destes. Assim ganha-se uma empatia grande com estes. Vamos ver o final destes, pois tem de ser algo em grande. A empatia criada tem de deixar grandes laços finais, o que vai ser difícil.

    E, só por acaso, apeteceu-me dizer: EXCELENTE COLUNA, TIAGO!

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    • Tiago Duarte /

      Obrigado :) . Temos partilhado muitas revisões já, mas estas de LOST são especiais… Contagem decrescente para o inicio de LOST, o final vou preparar uma festa com amigos para vermos o último. Foi assim mesmo que nos marcou estas personagens xD

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