A primeira vez que ouví falar de Twin Peaks foi nos meus tempos de escola, há alguns anos atrás. O livro “Diário secreto de Laura Palmer” escrito por Jennifer Lynch, filha de David Lynch, criador da série junto de Mark Frost, rodava pelas mãos do meu grupo de amigos. Todos estavam interessados em ler um pouco daquela história que não tinha nada de inocente e era inadequada para nossas idades. O diário de Laura relata em primeira pessoa o cotidiano da personagem desde seu 12º aniversário até poucos dias antes de sua morte, dando pistas para a solução do mistério do seriado. Mesmo tendo abocanhado uma legião razoável e considerável de fãs, o hype todo em cima da série não foi suficiente para mantê-la no ar. Em 1991 a série acabou cancelada em sua 2ª temporada devido aos baixos índices de audiência, totalizando 30 episódios. No Brasil a exibição da série não emplacou, tendo rodado por diversos canais, muitas vezes com supressão de episódios ou em horários ingratos, sendo renegada a adoração de pretensos intelectuais, se tornado “cult” e opção óbvia de demonstração de bom gosto e apreço aos estilos cinematográficos mais particulares, diferentes e marginais.
Eu havia baixado a série completa há algum tempo, e então no meio do ano passado assistí ao telefilme de 90 minutos, considerado o episódio-piloto, que dá inicio a 1ª temporada da série com mais outros 7 episódios. O telefilme foi filmado em 1989, mas exibido na TV em abril de 1990 junto com o resto da 1ª temporada, que era apenas um tapa-buraco na mid-season. Fato é que era incerto que Twin Peaks ia ser uma série. A Warner Bros solicitou que eles criassem um final para que assim eles ao menos podessem vendê-lo como um filme diretamente em VHS na Europa.
Não confunda se for baixar o telefilme que dá ínicio à série com o filme “Twin Peaks: Fire Walk With Me – Os Últimos dias de Laura Palmer” de 130 minutos, feito como um prelúdio de toda a história da série. As pessoas tendem a pensar que deveriam vê-lo primeiro, porém o filme foi feito e lançado um ano após o último episódio exibido na TV. Você deve ver este filme depois que você já viu a série por duas razões: existem grandes revelações neste filme, você poderia arruinar a maioria da série, e você não vai entender nada do que está acontecendo se você ainda não viu a série antes. Existe uma versão européia do piloto com cerca de 20 minutos de filmagem que não está na versão da TV, e se você está indo ver a série também não deve começar por essa versão pois, segundo o IMDB, o resto da série continua depois da versão da TV americana e algumas das cenas da versão européia foram colocadas na série no segundo episódio. Fato é que seguí a cartilha e peguei o telefilme e os episódios na ordem correta e não entendi o porque de toda a adoração ao estilo de Lynch. Seguí em frente, fui até o 3º episódio da história, e desistí!
Eis que essa semana que passou eu resolví, depois de uma conversa com um amigo, terminar a pequeníssima 1ª temporada da série para realmente ter uma opinião formada sobre o produto. Para minha grata surpresa, a avaliação final é que a série tem seu mérito e hoje eu já sou capaz de entender o porquê de todo o hype criado em torno dela. Porém nem tudo são flores, houveram coisas que me que me desagradaram, logicamente, e outros aspectos que me fizeram mudar de opinião positivamente sobre a série. Sem spoilers, não se preocupem.
O corpo de Laura Palmer (Sheryl Lee), uma jovem, bela e aparentemente pacata estudante, é encontrado enrolado em plástico na beira de um rio na pequena Twin Peaks, cidade fictícia que dá nome ao seriado. O mistério principal da história então é: “Quem matou Laura Palmer?”. Nos três episódios iniciais confesso que achei a série com um tom pueril e não atemporal como qualquer boa obra deve ser. Um desfile de excesso de personagens, muitos deles bizarros em histórias intricadas que não parecerem ter muito haver com o que nos interessava na história. A trama não se segura muito bem de imediato após o telefilme, salvo alguns poucos momentos de susto e emoção. Fato é que os momentos de estranheza são vários, e os personagens – repito, em excesso por mais que a maioria seja necessária – são apresentados em destaque em detrimento do plot principal. Pra se ter idéia, o enterro de Laura só acontece lá pelo terceiro episódio. Em outras palavras, o roteiro está mais preocupado em mostrar a estranheza, desequilibrio, o real caráter ou simplesmente a vida de seus personagens, e isso não é apresentado de forma dosada com a trama principal que corre aparentemente à passos lentos, à margem, não há como criar interesse, o primeiro sentimento é a repulsa.
Enviado pelo FBI até a cidade para investigar o caso do assassinato da jovem, o agente especial Dale Cooper, interpretado por um jovem e simpático Kyle MacLachlan, o Orson de Desperate Housewives, guarda todos os seus pensamentos em seu gravador, o que originou até um livro intitulado “Dale Cooper, Minha Vida, Minhas Gravações”. A partir dái o protagonista tem em seu caminho cenários do submundo da cidade e até sonhos irreais e surreais, como no Black Lodge, a sala misteriosa cheia de cortinas vermelhas, onde ele detém pistas do crime, e lida com um dos personagens estranhos, como o Anão que fala ao contrário, cena cultuada pelos fãs. Há também o Homem de Um Braço Só, além da figura repulsiva de Bob. Twin Peaks apresenta já no começo alguns elementos excêntricos que fazem parte de um quebra-cabeça, uma simbologia a ser desvendada que sempre permeia todas as pistas para o maior mistério de todos: a identidade do assassino de Laura, que somente é revelada na 2ª temporada, porém o caminho até lá, até o momento, é uma ótima experiência televisiva.
A boa trilha sonora criada originalmente pelo compositor Angelo Badalamenti ajuda e atrapalha. Ela funciona em alguns momentos, porém é irrefutável que a edição perde a mão durante toda a temporada utilizando praticamente a mesma faixa para todo e qualquer tipo de cena, e é justamente a música ”Twin Peaks Theme”, da longa e enfadonha abertura da série. Diferente dessa canção somente consegui diferenciar outras duas, se haviam outras, foram ofuscadas pelo uso da primeira em excesso.
A trama vira o jogo lá pelo 4º episódio quando de fato a coisa começa a esquentar e a série ao meu ver entra nos eixos, se focando completamente no mistério, não deixando de lado os seus personagens que fizeram dessa série o que ela é hoje. O novo folêgo talvez se deva ao comando de outros diretores para os episódios; os fãs de Lynch que me perdoem se sentirem-se ofendidos. Foi quando eu comecei a assimilar a enxurrada de nomes dos personagens e a série abraçou o suspense de vez. A chegada da prima de Laura, Madeleine “Maddy”, interpretada por Sheryl Lee que também faz a vítima do crime, a priori parece apenas uma desculpa para manter a atriz no elenco, mas se mostra muito importante para a trama da temporada. É o momento em que todos os personagens começam a se mostrar e correr atrás para esconder ou descobrir coisas do assassinato de Laura Palmer. Passamos a entender o papel e interesse de Audrey (Sherilyn Fen) – filha do dono do hotel da cidade, Benjamin Horne (Richard Beymer) – na investigação; e James (James Marshall) e Donna (Lara Flynn Boyle) passam a ser claramente o casal heróico da série, o que ajuda a criar empatia pela história. O elenco jovem – e bonito, vale ressaltar – ganha mais destaque e isso refresca a trama de uma maneira muito boa e evidente.
Lá pelo final da temporada elementos como Ronnete Pulaski, Jack Caolho e o Dr. Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn), psicólogo de Laura, ganham força e sentido, e a trama cheia de pistas subjetivas é amarrada de maneira eficiente. Com ressalva à história de Nadine (Wendy Robie), a mulher de tapa-olho; e da trama paralela e confusa da Serraria Packard – de Jocelyn Packard (Joan Chen), sua dona, e do casal Pete (Jack Nance) e Catherine Martell (Piper Laurie) – cujo objetivo e importância não conseguí entender para a trama principal, a não ser o de somente conduzir o lugar para servir de cenário para o climax do último episódio da temporada, cujo desfecho é muito bom e interessante, nos deixando um cliffhanger de igual qualidade para a 2ª temporada.
Pra se der idéia da teia que envolve essa trama, ainda há outros elementos e pesonagens muito importantes na história que nem cheguei a citar aqui como o pai de Laura, Leland (Ray Wise) que está sempre chorando esquizofrenicamente e querendo dançar, e sua mãe não menos esquizofrênica Sarah Palmer (Grace Zabriskie); além do casal problemático formado pela garçonete Shelly (Mädchen Amick) e o suspeito Leo Johnson (Eric DaRe).
Mesmo com suas estranhezas e possíveis reais dificuldades de conquistar o público que vê a série hoje, a história de Twin Peaks permanece ecoando de ouvido em ouvido. Pode parecer exagero, mas é fato perceptível que Twin Peaks deu o pontapé inicial e mudou o jeito de se fazer TV, onde o mistério é mais fascinante que a solução. Ensinando a lição à séries como The X-Files, LOST, C.S.I. e muitas outras, abrindo espaço para tramas mais adultas e complexas, que talvez não existissem se não fosse pela série de Lynch e Frost.

Nossa, muita gente, muita gente mesmo, me fala bem dessa série! Gosto bastante da maluquice do David Lynch e com certeza irei ver essa série um dia. Só falta tempo. Parabéns pela iniciativa de abordar uma série que não está mais no ar. =)
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Essa série quando surgiu era a “loucura total”, foi uma espécie de “LOST” (no aspecto de fama e fãs) na descoberta quem matou Laura Palmer… a série era vista em todo o mundo, ao contrário do que pensas que quase ninguém viu, só que para quem conhece o realizador David Lynch (eu por acaso sou fã), uma história que em parte era ao estilo actual de Damages (em termos de mistérios) em alguns aspectos a título de exemplo, a partir da 2ª temporada tornou-se uma série ao estilo peculiar em completo do como costumam ser os filmes do David Lynch o que acabou por fazer perder praticamente toda a audiência que tinha…pode-se dizer em parte que se tornou um enredo que tanto tinha de real, como de ficção ou ao sabor de como ia o humor do David Lynch na altura, o que acabou em parte por “matar” a série em si.
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Não concordo com o que dizes na última frase, o que matou a série foi a saída de Lynch para outros projectos, durante grande parte da segunda temporada. Ele só voltou para os episódios finais e conseguiu recuperar a magia e depois ainda lançou o filme. Se David Lynch se tivesse mantido sempre à frente da série teriamos uma segunda temporada toda ela de um nível altissimo. Assim a segunda tem um inicio bom, um meio muito mediocre e um final arrebatador.
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Eu assisti a esta série com 11 anos quando foi lançada (Não morava em Portugal)
Não se falava de outra coisa na escola.
Marcou-se sem duvida! A banda-sonora era linda, ainda hoje tenho a K7 em óptima condição. O The Man from Another Place causava-me pesadelos lol. Sacana era obscuro, aquela forma de dançar, a sua voz, a musica no fundo. Fdx, só de pensar ainda hoje causa-me arrepios nostálgicos.
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Provavelmente uma das melhores séries de sempre, senão a melhor. Por tudo o que dei à televisão e pelo arrojo que foi. Palmas para David Lynch
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Um dia destes tenho de a ver toda seguida, vi-a há uns 6 ou 7 anos na SIC Radical e não tenho a certeza se vi todos os episódios porque não me lembro de quase nada, mas lembro-me muito bem do episódio em que o protagonista anda por aquela casa cheia de cortinas vermelhas e aparece aquele anão…eu pensava que esse tinha sido o último episódio da série mas afinal parece que não, portanto tenho mesmo de a rever.
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Audrey era a maior. Ganda maluca. rsrsrs
Adiante, vi em miúdo e revi em adulto. Muito bom e aconselho a todos os que não viram. O Agente Especial Dale Cooper é uma grande personagem televisiva, muito bom papel.
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Acabei de ver o último episódio da 1ª temporada. Assim como a maioria das pessoas aqui, ouvi falar bem da série em vários blogs e sites afora.
Minha história é parecida com a sua: até o 3º episódio, achei tudo muito chato, lento… mas a partir do 4º, as coisas dão uma guinada e levam para um final de temporada bem legal!
Na verdade, o que MAIS ME INCOMODA em todos os episódios é o uso excessivo da trilha sonora! É a mesma música pra qualquer tipo de cena: romance, drama, mistério – sempre a mesma música-tema da série. Acaba cansando um pouco.
Acho que grande parte do mérito da 1ª temporada é a atuação do cara que faz o agente Cooper. Ele é bem carismático e o personagem é bem bacana. Agora vou começar a 2ª temporada!
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